Artigo de Fernando Gabeira
Ganhar ou perder eleições, vitórias apertadas, derrotas
humilhantes — tudo isso faz parte da política. Mas, diante das urnas
totalizadas, a melhor reação não é remoer rancores, mas entender o que as
pessoas tentaram dizer com seu voto. Em primeiro lugar, o recado dos que não
foram às urnas, votaram em branco ou anularam. Em número, superaram os votos do
candidato eleito em primeiro turno em São Paulo. No Rio, foram mais numerosos
que a soma dos votos dos dois Marcelos que chegaram ao segundo turno.
No mesmo domingo em que houve eleições municipais no Brasil,
colombianos e húngaros foram às urnas, também com um alto nível de abstenção.
Isso acontece em muitos países, mas em cada um tem suas razões. No caso
brasileiro, a julgar pelo que ouvi nas ruas, e olha que rodei muito para um não
candidato, muitos se sentem não representados, outros temem que seu voto acabe
fortalecendo a roubalheira de sempre. A agonia do sistema político brasileiro
ficou evidente, e já é mais do que hora de alguma mudança, para não chegarmos
ao nível do plebiscito húngaro: somente 39% dos eleitores votaram.
As eleições mostraram uma rejeição nacional ao PT, com maior
intensidade em São Paulo. Não adianta se consolar com o fato de que o sistema
político também foi rejeitado. Na contagem de votos, ficou claro que alguns
foram rejeitados, outros, escolhidos. É simples assim. Mas a tendência a negar
tudo, esse complexo de marido infiel de Nelson Rodrigues, vai persegui-los por
algum tempo. Cada um com suas ilusões. Na semana passada, escrevi sobre as
ilusões perdidas no processo político. Por coincidência, encontrei um texto
sobre ilusão, comparando o budismo e o taoismo. Segundo o autor, o budismo
procura nos despertar do sonho. O taoismo nos desperta para o sonho. O pensador
taoista Chuang–Tzu afirma que despertar para a verdade de que a vida é um sonho
não significa afastar-se dela, mas acolhê-la de uma forma mais sábia. O místico
chinês achava que não podemos nos livrar das ilusões, apenas tentar sempre
despertar para um sonho mais lúcido.
A eleição de São Paulo consagrou um candidato com um perfil
mais próximo do empresário que do político profissional. Além da corrupção, que
é o grande tema, existe no ar uma demanda por eficácia. Os empresários
experimentados na gestão são uma espécie de alternativa que surge
espontaneamente nos sistemas políticos em crise. São, na aparência, distintos
dos políticos e, além do mais, podem financiar suas campanhas com recursos próprios.
No entanto, o processo é muito mais complexo que a simples gestão. É inegável
que ela é um fundamento essencial de um governo. Mas outras habilidades — como
harmonizar interesses conflitantes e projetar o futuro de uma complexa
metrópole — também têm seu peso e podem cobrar caro pela sua ausência.
No caso da derrocada do PMDB no Rio, não creio que o tema
gestão tenha sido decisivo, mas vejo uma importância maior na escolha do
candidato. A tendência dos governantes é escolher alguém pelo seu nível de
fidelidade. Lula arruinou a possibilidade de um processo político no PT
escolhendo Dilma. A ideia de impor sua própria escolha ao eleitorado acaba
empobrecendo a própria disputa eleitoral. Ainda mais porque, às vezes, nos
arvoramos em interpretar a opinião dos eleitores e achar que ela é volúvel e
pode ser domesticada pela propaganda. Nesse sentido, o processo americano de
eleições primárias soa muito mais adequado. Os candidatos passam por duras
provas, submetem-se a debates, e só depois de conquistar suas próprias bases
partem para o confronto maior. As escolhas do PT e de Paes ganharam um nome
nascido no partido dominante no México: a dedada, como instrumento de escolha.
No entanto, os norte-americanos têm uma fórmula que permite,
pelo menos parcialmente, estabelecer um vínculo entre os candidatos e os
eleitores. Potencialmente, é algo que melhora a qualidade política. Como
explicar Trump, então? Ele passou por todos os testes, explorou a imagem de
empresário e se aproveitou do desgaste dos políticos. Alguns dos melhores
republicanos reconhecem a limitação de Trump. Assim como alguns tucanos em São
Paulo têm reservas em relação a João Doria.
Mas esse é o recado. Sistemas políticos envelhecidos, que
não conseguem produzir sua renovação, acabam sendo superados por algo que vem
de fora, inicialmente pessoas bem-sucedidas, com capacidade de financiar suas
campanhas. Não há milionários nem astros de TV para assumir todos os governos.
Não é uma solução para um problema mais amplo. Dissociado de um projeto coletivo,
do permanente choque de ideias, o sistema político em agonia foi às urnas e
perdeu as eleições. Sem desculpa para a derrota do PT, que muito contribuiu
para aviltá-lo.
Já que, segundo Chuang-Tzu, escolhemos apenas as ilusões das
quais não podemos nos livrar, arrisco dizer que domingo foi o prenúncio de uma
reforma política. Mas, como Chuang-Tzu, não sei se sou homem sonhando ser uma
borboleta ou uma borboleta sonhando ser um cronista do GLOBO.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 09/10/2015

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