Empatia é uma
palavra que entrou no nosso vocabulário cotidiano. O significado dela, porém,
não parece estar em alta. Segundo o Aurélio, é a “tendência para sentir o que
sentiria caso estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por outra
pessoa”. Fácil de entender, mas difícil de praticar.
Antes de sermos
Flamengo ou Fluminense, esquerda ou direita, indígenas ou não indígenas, heterossexuais
ou não, temos algo que nos une: somos todos humanos, ok? Fecha-se agora o
almanaque de filosofia e abrem-se os jornais.
Na quinta 8, Jair
Bolsonaro voltou a exaltar seu torturador de cabeceira, o coronel Carlos
Alberto Brilhante Ustra (1932-2015). Disse que foi um “herói nacional”. A
Arquidiocese de São Paulo denunciou mais de 500 casos de tortura ocorridos no
DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de
Defesa Interna) entre 1970 e 1974, quando Ustra era o comandante. De acordo com
muitos relatos, como o do vereador paulistano Gilberto Natalini (PV) (https://epoca.globo.com/gilberto-natalini-torturado-por-ustra-bolsonaro-abracou-bestialidade-23867280 ),
Ustra não apenas dava ordens, mas participava das sessões. Foi condenado em
segunda instância como torturador.
Considerar
inaceitável qualquer forma de tortura deveria ser o marco zero da empatia. É
verdade que torturas psicológicas podem ser tão devastadoras quanto as físicas.
Vários de nós já fomos causadores ou vítimas disso. Mas destruir o corpo de
alguém indefeso, ainda extraindo prazer dessa destruição, soa como o ponto
máximo da covardia.
Pesquisas recentes
indicam que Bolsonaro permanece apoiado por um terço dos entrevistados no país
– a aprovação é menor no Nordeste (https://epoca.globo.com/guilherme-amado/avaliacao-de-bolsonaro-despenca-no-nordeste-aponta-pesquisa-23867692 ).
Se, depois de todas as atrocidades que ele proferiu em pouco mais de sete meses
de governo, a parcela dos que o apoiam não despenca, fica difícil afirmar que
isso acontece “apesar” das atrocidades. Talvez seja “por causa” delas.
Devem ser muitos os
que não sentem náuseas ao ouvir o presidente do país glorificar um torturador;
ou chamar de mentirosa uma pessoa (a jornalista Míriam Leitão) que relatou em
detalhes as torturas que sofreu; ou tripudiar da dor de um filho (o advogado
Felipe Santa Cruz) que não pôde crescer com o pai, pois a ditadura o matou e
ainda desapareceu com seu corpo.
Existem as turmas do
“por outro lado...”. Um exemplo são os empresários, financistas e até
jornalistas que minimizam as declarações de Bolsonaro (“Ele é assim mesmo...”)
em nome do que seria mais importante: as reformas econômicas. Para eles,
civilização e empatia têm pouco valor e podem atrasar o Brasil. Ame-o ou
deixe-o.
A intolerância com a
corrupção é saudável e necessária. Mas como ser intolerante com os roubos
ocorridos nos governos petistas e fechar os olhos para os fortíssimos indícios
de que a família Bolsonaro e os clãs ao redor se apropriaram de dinheiro
público, conforme vêm revelando ÉPOCA e o jornal O Globo ( https://epoca.globo.com/familias-que-assessoram-bolsonaros-receberam-65-milhoes-desde-1991-23865939 )?
O desvio de recursos públicos pode se dar em outra ordem de grandeza, mas a
questão não é matemática, e sim filosófica: é correto ou não é correto fazer
uso pessoal de bens coletivos? Até certa quantia pode continuar enchendo o
peito e se dizer “cidadão de bem”?
Nos períodos
sombrios, palavras vão perdendo sentidos, nuances, princípios, pontos de
equilíbrio. Tornam-se brutas e cínicas. Como sabemos, na entrada do campo de
concentração de Auschwitz estava escrito: “O trabalho liberta”. O escritor
Primo Levi (1919-1981) (https://epoca.globo.com/cem-anos-de-primo-levi-23845485 ),
que sobreviveu a Auschwitz e se matou quatro décadas depois, escreveu outra
frase no título de seu livro mais importante: “É isso um homem?”. Enquanto
ainda conseguirmos fazer essa pergunta aos outros e a nós mesmos, restará um
pouco de esperança e empatia.

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