Bolsonaro esvazia
Moro para ocupar espaço na pauta da segurança
Raros ministros conseguem voar mais alto que
um presidente. Sergio Moro talvez nunca tenha se iludido com essa
possibilidade, mas a agitação de suas asas incomodou aliados de Jair Bolsonaro.
Por garantia, o presidente mantém os pés de seu subordinado bem firmes no chão.
Quando o Congresso
começou a criar dificuldades para o pacote de combate ao crime de Moro,
Bolsonaro deu razão aos parlamentares. Disse que é melhor esquecer o assunto
por um tempo, já que a discussão pode atrapalhar a pauta econômica.
“Lamento, mas tem
que dar uma segurada. Não quero pressionar isso aí e tumultuar lá”, disse
Bolsonaro, nesta quinta (8). Em poucas palavras, o chefe deixou claro que não
gastaria capital político para bancar a principal bandeira do auxiliar.
Seria só uma
avaliação trivial se o próprio presidente não tivesse, na véspera, anunciado
que seu governo vai elaborar um projeto “mais amplo” que o de Moro. Um dos
pontos seria a exclusão de punições a policiais que matarem em serviço.
Em um único
movimento, Bolsonaro esvaziou um instrumento emblemático do superministro,
ocupou parte desse espaço e mostrou que tem propostas ainda mais violentas para
a segurança. Dias antes, ele já havia podado uma ferramenta de combate à
corrupção de Moro ao sugerir a troca do comando do Coaf.
Depois de marcar posição,
o presidente chamou o ex-juiz para uma transmissão nas redes sociais. O espaço
não foi um palanque para o ministro. Serviu, principalmente, para que ele
pudesse reverenciar o chefe.
O ministro deu
crédito ao patrão pela transferência de traficantes de presídios e elogiou suas
ideias para a segurança. O presidente levantou o pacote anticrime, e Moro
retribuiu: “Não é um projeto do Moro. É um projeto do governo Jair Bolsonaro”.
O ministro entendeu
que precisa se amarrar ao presidente para evitar sabotagens internas. Bolsonaro
sabe que também se beneficia da imagem do ex-juiz, mas parece mais consciente
de que essa cidade é pequena demais para dois xerifes.

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