Até outro dia, sapateiros eram sapateiros, mecânicos eram
mecânicos, cientistas eram cientistas. Um mecânico não ia além da sola, um
cientista não trocava rebimbocas e um sapateiro não dividia o átomo. Um
advogado não se passava por médico, um químico não dava uma de padre e um
jogador de futebol não escrevia “Hamlet”. E nenhum deles precisava aprender o
ofício de um engenheiro eletrônico. Hoje, todo mundo precisa ser engenheiro
eletrônico.
Dei-me conta disso quando ouvi falar que o Telegram de
Sergio Moro e Deltan Dallagnol tinha sido invadido e pessoas estavam lendo suas
mensagens. Logo imaginei um espião embuçado abrindo os telegramas entre os
dois, talvez aproximando-os do vapor para derreter a cola, copiando seus
conteúdos e os lambendo para colar de novo. E até me espantei de alguém ainda
se comunicar por telegramas. Para minha surpresa, fui informado de que o
Telegram era um “serviço de mensagens instantâneas criptografadas fim a fim no
modo client-to-client ou client-to-server, baseadas na nuvem”.
Eu disse “Ah, bom!” e, vexado por minha ignorância,
perguntei como acontecera. Responderam-me que uma invasão dessas se dá quando o
usuário é induzido a fazer um reset de senhas e recebe um arquivo Office ou um
app comprometido.
Assustado, quis saber como evitar isto e me disseram que, ao
baixar um app, é preciso ativar o aplicativo dentro desta página da web após
avaliar a descrição do aplicativo associado à nota de avaliação e considerar a
quantidade de downloads efetivos e os comentários dados por estes usuários.
Simples.
Ou seja, o cidadão comum está sendo obrigado a achar
soluções para problemas que não criou, é isso? Estou fora. Nos últimos cem
anos, tenho ganhado a vida lendo, fazendo perguntas e escrevendo. Se, em breve,
isso não bastar, vou para a lavoura, feliz da vida.
*Ruy Castro, jornalista e escritor, autor das biografias de
Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues

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