UMA ORGANIZAÇÃO AMERICANA fundada pelos gigantes da tecnologia Google e IBM vem
trabalhando com uma empresa que está ajudando o governo autoritário da China a
conduzir uma vigilância em massa contra seus cidadãos, é o que revela uma
investigação inédita do Intercept.
A OpenPower Foundation
– uma organização sem fins lucrativos liderada por executivos do Google e da
IBM com o objetivo de tentar “impulsionar a inovação” – estabeleceu uma
colaboração entre a IBM, a empresa chinesa Semptian e a fabricante de chips
americana Xilinx. Juntas essas empresas trabalharam para promover uma série de
microprocessadores que permitem que os computadores analisem grandes
quantidades de dados com mais eficiência.
De acordo com fontes
e documentos, a Semptian, com sede em Shenzhen, está usando os dispositivos
para melhorar os recursos da tecnologia de vigilância e censura da
internet fornecida às agências de segurança que abusam dos direitos humanos na
China. Um funcionário da empresa disse que essa tecnologia está sendo usada
para monitorar secretamente a atividade na internet de 200 milhões de pessoas.
Semptian, Google e
Xilinx não responderam aos pedidos de comentários a respeito do assunto. Em
comunicado, a OpenPower Foundation informou que “não se envolve nem procura ser
informada a respeito de estratégias, objetivos ou atividades individuais de
seus membros”, devido às leis antitruste e de concorrência. Um porta-voz da
empresa afirmou que a IBM, “não trabalhou com a Semptian no desenvolvimento
conjunto de tecnologia”, mas se recusou a responder a outras perguntas.
Conforme uma fonte familiarizada com as operações da Semptian, a empresa havia
trabalhado com a IBM através de uma plataforma de nuvem colaborativa
chamada SuperVessel, que é mantida por uma unidade de pesquisa da
IBM na China.
O senador Mark
Warner, vice-presidente do Comitê de Inteligência do Senado norte-americano,
disse ao Intercept que ficou alarmado com as revelações. “É preocupante ver que
a China recrutou com sucesso empresas e pesquisadores ocidentais para ajudar em
seus esforços de controle de informações”, disse Warner.
Para Anna
Bacciarelli, pesquisadora da Anistia Internacional, a decisão da OpenPower
Foundation de trabalhar com a Semptian levanta questões sobre sua adesão aos
padrões internacionais de direitos humanos. “Todas as empresas têm a
responsabilidade de realizar a devida diligência em direitos humanos em todas
as suas operações e cadeias de fornecimento”, disse Bacciarelli, “inclusive por
meio de parcerias e colaborações.”
A Semptian se
apresenta publicamente como uma empresa de análise de “big data” que trabalha
com provedores de internet e institutos educacionais. No entanto, uma parcela
substancial dos negócios da empresa chinesa é, na realidade, gerada por meio de
uma empresa de fachada chamada iNext, que vende as ferramentas de vigilância e
censura da internet para governos.
A iNext opera nos
mesmos escritórios na China como Semptian, com ambas as empresas ocupando o
oitavo andar de uma torre no movimentado distrito de Nanshan, em Shenzhen.
Semptian e iNext também compartilham os mesmos 200 funcionários e o mesmo
fundador, Chen Longsen.
Depois de receber
dicas de fontes confidenciais sobre o papel da Semptian na vigilância em massa,
um repórter contatou a empresa usando um nome falso e fingindo ser um cliente
em potencial. Em resposta, um funcionário da Semptian enviou documentos mostrando que a empresa – sob a forma de
iNext – desenvolveu um sistema de vigilância em massa chamado Aegis que,
segundo ele, pode “armazenar e analisar dados ilimitados”.
Nos documentos, a
empresa afirma que o Aegis pode oferecer “uma visão completa do mundo virtual”,
permitindo que espiões do governo vejam “as conexões de todo mundo”, incluindo
“informações de localização para todos no país”.
Os documentos
mostram que o sistema também pode “impedir que certas informações [na] internet
sejam visitadas”, censurando conteúdos que o governo não quer que os cidadãos
vejam.
Segundo duas fontes
familiarizadas com o trabalho de Semptian, o equipamento do Aegis foi colocado
nas redes de telefone e internet chinesas, permitindo que o governo do país
colete secretamente registros de e-mail, telefonemas, mensagens de texto, localizações
de celulares e históricos de navegação.
As agências de
segurança estatais chinesas provavelmente estão usando a tecnologia para atacar
ativistas de direitos humanos, defensores pró-democracia e críticos do regime
do presidente Xi Jinping, disseram as fontes, que falaram sob condição de
anonimato devido ao medo de represálias.
Nos e-mails, um
representante da Semptian afirmou que o sistema de vigilância em massa Aegis da
empresa estava processando enormes quantidades de dados pessoais em toda a China.
“O Aegis é
ilimitado. Estamos lidando com milhares de Tbps [terabits por segundo] na
China. São mais de 200 milhões de habitantes”, escreveu Zhu Wenying, um
funcionário da Semptian, em uma mensagem em abril.
A estimativa é de
que existem 800 milhões de usuários de internet na China. Isso quer dizer que,
se o número de Zhu for preciso, a tecnologia da Semptian está monitorando um
quarto da população total do país. O volume de dados que a empresa alega estar
sendo manipulado por seus sistemas – milhares de terabits por segundo – é
impressionante: uma conexão à internet de 1.000 terabits por segundo poderia
transferir 3,75 milhões de horas de vídeo de alta definição a cada minuto.
“Não deve haver
muitos sistemas no mundo com esse tipo de alcance e acesso”, disse Joss Wright,
pesquisador sênior do instituto de internet da Universidade de Oxford. É
possível que a Semptian tenha inflado seus números, disse Wright. No entanto,
acrescentou, um sistema com a capacidade de acessar grandes quantidades de
dados é tecnologicamente viável. “Há dúvidas sobre quanto processamento [de
dados das pessoas] ocorre”, disse Wright, “mas, por qualquer definição
significativa, trata-se de um vasto esforço de vigilância.”
As duas fontes
familiarizadas com o trabalho da Semptian na China disseram que os equipamentos
da empresa não extraem e armazenam dados de milhões de pessoas aleatoriamente.
Em vez disso, disseram as fontes, o equipamento tem visibilidade nas
comunicações à medida que elas passam pelas redes telefônicas e da internet e
pode filtrar informações associadas a palavras, frases ou pessoas específicas.
Em resposta à
solicitação de um vídeo contendo mais detalhes sobre como funciona o Aegis, Zhu
concordou em enviar um, desde que o repórter disfarçado assinasse um acordo de
confidencialidade. O Intercept está publicando um pequeno trecho do vídeo de 16
minutos por conta da impressionante importância pública de seu conteúdo, que
mostra como milhões de pessoas na China estão sujeitas à vigilância do governo.
O Intercept removeu informações que poderiam infringir a privacidade
individual.
A demonstração em
vídeo da Semptian mostra como o sistema Aegis rastreia os movimentos das
pessoas. Se um agente do governo digitar o número do celular de uma pessoa, o
Aegis pode mostrar onde o dispositivo esteve em um determinado período de
tempo: os últimos três dias, a última semana, o último mês ou mais.
O vídeo exibe um
mapa da China continental e amplia para seguir eletronicamente uma pessoa em
Shenzhen enquanto ela percorre a cidade, indo de um aeroporto, atravessando
parques e jardins, a um centro de conferências, a um hotel e passando pelos
escritórios de uma empresa farmacêutica.
A tecnologia também
permite que usuários do governo executem pesquisas por nome de mensagem
instantânea, endereço de e-mail, conta de mídia social, usuário de fórum,
comentarista de blog ou outro identificador, como um código IMSI de celular ou
um endereço MAC de computador, uma série exclusiva de números associado a cada
dispositivo.
Em muitos casos,
parece que o sistema é capaz de coletar todo o conteúdo de uma comunicação,
como o áudio gravado de uma chamada telefônica ou o corpo escrito de uma
mensagem de texto, não apenas os metadados, que mostram o remetente e o
destinatário de um e-mail, ou os números de telefone para o qual alguém ligou e
quando. Se o sistema pode acessar o conteúdo completo de uma mensagem, isso
provavelmente depende de ela ter sido protegido com criptografia forte.
Zhu, o funcionário
da Semptian, escreveu em e-mails que a empresa poderia fornecer aos governos
uma instalação do Aegis com capacidade para monitorar a atividade de 5 milhões
de pessoas na internet por um custo entre US$ 1,5 milhão e US$ 2,5 milhões.
Para espionar outras comunicações, o custo aumentaria.
“Se adicionarmos
chamadas telefônicas, mensagens SMS, localidades”, segundo Zhu, “serão
adicionados de US$ 2 a US$ 5 milhões, dependendo da rede.”
EM SETEMBRO DE 2015, a Semptian se juntou à OpenPower Foundation, uma organização sem
fins lucrativos sediada nos Estados Unidos, fundada pelos gigantes da
tecnologia Google e IBM. A atual presidente da fundação é Michelle Rankin, da IBM, e
seu diretor é Chris Johnson, do Google.
Registrada em Nova
Jersey como uma organização de “melhoria da comunidade”, a fundação afirma que
seu objetivo é compartilhar os avanços em tecnologia de redes, servidores,
armazenamento de dados e processamento. De acordo com seu site, a
fundação quer “permitir que os centros de dados de hoje repensem sua abordagem
à tecnologia”, bem como “impulsionar a inovação e oferecer mais opções no
setor”.
A Semptian se
beneficiou da colaboração com empresas americanas obtendo acesso a conhecimento
especializado e novas tecnologias. Em seu site, a empresa chinesa se orgulha de
estar “trabalhando ativamente com empresas de classe mundial, como a IBM e a
Xilinx”. Também afirma que é a única empresa na região da Ásia-Pacífico que
pode fornecer a seus clientes novos dispositivos de processamento de dados
desenvolvidos com a ajuda dessas empresas dos EUA.
No ano passado, a
OpenPower Foundation declarou em seu site que estava “muito feliz” que a Semptian estivesse trabalhando com a
IBM, a Xilinx e outras corporações americanas. A fundação afirmou que também
estava “trabalhando com grandes universidades e instituições de pesquisa na
China”. Em dezembro, os executivos da OpenPower organizaram uma cúpula em
Pequim, no hotel cinco estrelas Sheraton Grand, no distrito de Dongcheng.
Representantes da Semptian foram convidados a comparecer e demonstrar aos
colegas americanos novas tecnologias de análise de vídeo que vêm desenvolvendo
para finalidades que incluem “monitoramento da opinião pública”, disse uma
fonte ao Intercept.
Não está claro por
que os gigantes da tecnologia dos EUA escolheram trabalhar com a Semptian. A decisão
pode ter sido tomada como parte de uma estratégia mais ampla para estabelecer
laços mais estreitos com a China e obter maior acesso ao lucrativo mercado do
país do leste asiático. Um porta-voz da OpenPower Foundation se recusou a
responder perguntas sobre o trabalho da organização com a Semptian, dizendo
apenas que “a tecnologia disponível através da fundação é de uso geral, está
comercialmente disponível em todo o mundo e não exige uma licença de exportação
dos EUA”.
Segundo Elsa Kania,
pesquisadora sênior adjunta do Centro para uma Nova Segurança Americana, um
think tank de política, em alguns casos, parcerias comerciais e
colaborações acadêmicas entre empresas americanas e chinesas são importantes e
valiosas, “mas quando é uma empresa conhecida por estar tão intimamente ligada
a censura ou vigilância e é profundamente cúmplice em abusos dos direitos
humanos, é algo muito preocupante”.
“Eu esperava que as
empresas americanas tivessem processos rigorosos de análise ética antes de
qualquer envolvimento”, disse Kania. “Mas às vezes parece que existe uma
política de ‘não perguntar, não contar’, de lucro acima da ética.”
A Semptian, que foi
fundada em 2003, tem sido uma parceira de confiança do governo da China há
anos. O regime concedeu à empresa o status de “Empresa Nacional de Alta
Tecnologia”, o que significa que ela passou por várias análises e auditorias
conduzidas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. As empresas que recebem
esse status especial são recompensadas com tratamento preferencial do governo
na forma de isenções fiscais e outros tipos de apoio.
Em 2011, a revista
alemã Der Spiegel publicou um artigo destacando a estreita relação da Semptian com o
estado chinês. A empresa ajudou a estabelecer aspectos do chamado Grande
Firewall, um sistema de censura na internet que bloqueia sites que o Partido
Comunista considera indesejáveis, como aqueles sobre direitos humanos e
democracia. “A tecnologia de controle de rede da Semptian está em uso em
algumas das principais cidades chinesas”, informou a Spiegel na época.
Em 2013, a Semptian
começou a promover seus produtos em todo o mundo. Os representantes da empresa
viajaram para a Europa, onde apareceram em uma feira de segurança realizada em
uma sala de conferências no nordeste de Paris. Documentos mostram que, naquele
evento, a Semptian ofereceu a funcionários de governos internacionais a chance
de copiar o modelo de internet chinês comprando um “Firewall Nacional”, que a
empresa disse ser capaz de “bloquear informações indesejáveis da internet”.
Apenas dois anos
depois, foi aprovada a participação da Semptian na OpenPower Foundation, e a
empresa começou a usar a tecnologia americana para tornar seus sistemas de
vigilância e censura mais poderosos.
Tradução: Cássia
Zanon

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