O Rio é um lugar onde armas de guerra dividem a paisagem com
o mar, as palmeiras e os trens suburbanos. É, também, a terra onde mais
florescem as milícias armadas.
Nos palácios celebram-se liturgias de leniência com a
expansão da influência desses grupos em instituições públicas. Eles garantem
votos. Em troca, recebem apoio aos negócios.
Acabou-se a discrição na trapaça. Pela primeira vez, o Rio
poderá ter um candidato a prefeito com origem miliciana atestada em juízo.
Jerônimo Guimarães Filho, 71 anos, pioneiro de bandos na
Zona Oeste, está em campanha pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB). Foi
vereador pelo MDB por oito anos, até ser condenado por crimes como uma chacina
de nove pessoas.
Jerominho, como é conhecido, nega tudo. Depois de uma década
na cadeia, parece querer legitimar as alianças das milícias. Seu reduto é a
Zona Oeste. Estava preso, em 2008, quando elegeu a filha vereadora. Na época,
ela habitava uma cela no presídio de Catanduvas (PR), a 1,4 mil quilômetros da
Câmara do Rio.
Se confirmada, sua candidatura pode iluminar parte dos
porões da política carioca. Ajudaria a dimensionar o tamanho e a influência das
quadrilhas, além de indicar tendências da população refém da falência do Estado
— no Hospital Federal de Bonsucesso, doentes de câncer esperam seis meses por
atendimento.
O controle de voto oxigena as milícias. Isso já prevalece em
468 seções da capital, com mais de 610 mil eleitores (12% do total), sugerem
dados da Justiça Eleitoral sobre a votação concentrada em candidatos apoiados
por milícias na Zona Oeste.
O antigo chefão da Zona Oeste entraria na disputa com
Bolsonaro, Witzel, Crivella & Cia. por pedaços da máquina eleitoral na
cidade perdida pelo MDB desde a prisão do ex-governador Sérgio Cabral.
A eficácia dessa engrenagem foi reafirmada na última eleição
presidencial. Garantiu a Bolsonaro mais de 60% dos votos em 40 das 49 zonas
eleitorais do Rio. Ele só perdeu (com 48,8%) em Laranjeiras. Em 22 zonas,
recebeu mais de dois terços dos votos.

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