Tem um pessoal que não assiste novela. Nem telejornal. Esse
pessoal vai além: não tem TV em casa. Isso aí é de uma blasfêmia, porque, veja
bem, pra que a sociedade investiu anos em Bombril, tubo de imagem e carnê de
eletrodomésticos? É preciso fazer justiça aqui. O Bombril existe para ser um
gadget complementar e analógico da antena de TV. A TV clássica, ou vintage.
Até toca-discos tá voltando, e tem um pessoal que não compra
uma TV, não resgata uma Telefunken Palcolor 1982 de 26 polegadas. A Telefunken
foi minha babá. Nela eu via Daniel Azulay, Bozo, Chacrinha e Trapalhões.
E, claro, as novelas.
De Dias Gomes,
essa novela, hoje classificada como obra de realismo fantástico, conta a
história do município de Bole-Bole, no interior de Pernambuco.
A história é basicamente sobre o nome da cidade. Um grupo
queria mudar o nome pra Saramandaia, e os outros queriam manter o nome de
Bole-Bole. Os que queriam mudar o nome eram chamados de “mudancistas”, e os que
queriam manter o nome eram os “tradicionalistas”.
Toda a trama, os personagens, as histórias laterais,
giram em torno de um conflito: A mudança de um nome de uma cidade no meio do
nada. Uma babaquice, pra quem não tem TV em casa.
Mas Dias Gomes está dando uma aula de Brasil, pro povo que
compra uma TV em 24 prestações na Ultralar, as Casas Bahia da época.
E Dias Gomes era um escritor-problema. Toda vez que eu vejo
alguém dizendo “Fora Globo” ou “Boicote à Foice de São Paulo”, eu pego um
cigarro do tamanho do meu braço, cruzo as pernas e fumo duma só vez, lembrando
de Dias Gomes.
A primeira coisa profissional que Dias Gomes fez foi uma
peça pra teatro chamada “A Comédia dos Moralistas”. Logo de cara, ele demonstra
um incômodo pessoal com a forma em que a sociedade brasileira se organiza em
suas dimensões de poder e desigualdade. Na sequência, escreve “Amanhã Será
Outro Dia”, uma peça totalmente antinazista, em plena Segunda Guerra Mundial.
Estamos em 1941, e Procópio Ferreira, um ator importantíssimo, decide falar com
Dias Gomes e desse encontro sai uma outra peça chamada “Pé de Cabra”, tão
marxista, que foi proibida no dia da estreia. Bilhetes vendidos, polícia entra,
vai no camarim de Procópio, uma blasfêmia. Teje preso todo mundo.
Procópio não abandonou Dias Gomes.
Tu sabe a vergonha que dá ser
censurado, perseguido ou ameaçado por algo que você produziu? Dias
Gomes sabia. Se sentia frustrado, com medo de não pagar suas contas, e com um
peso enorme na consciência, por dizer aquilo que considerava verdade. Procópio
assinou um contrato com ele, e por anos trabalharam juntos. Dias Gomes, cada
vez mais putaço da vida e com o sistema, metia bala em novas peças e ideias.
Virou comunista. De tanto o chamarem de comunista, acordou, escovou os dentes,
pegou um bonde e foi pro centro do Rio se inscrever no PCB. Se iam chamar de
comunista, pelo menos ela tinha uma carteirinha da porra do partido. Nem os
comunistas evangelizaram ele, foram as pessoas que o chamavam de comunista, que
o convenceram que ele era.
Esse Dias Gomes escreveu “O Pagador de Promessas”. Esse
cara. Esse cara que, qualquer coisa que escrevia, era polícia batendo na porta,
o povo esculachando, ligando pras redações, expondo como um badernista. Parece
que, quanto mais se batia no homem, mais ele botava pra fora provocações, em
forma de teatro. “O Pagador de Promessas”, do teatro pros cinemas, se tornou o
primeiro filme brasileiro indicado a um fucking Oscar. E este ano temos o
“Democracia em Vertigem”, ou seja, o Oscar gosta de comunistas há muito tempo.
Já na ditadura, Ustra cortando a garganta de todo mundo,
Dias Gomes escreve “O Berço do Herói”. E de novo essa peça seria proibida no
dia da estreia. Queimado no teatro, porque nem todo mundo tinha coragem de
botar a cara que nem ele, Dias Gomes ficou, no bom português, fudidão.
Cheio de verdades na ponta da língua, bolso vazio. Foi nessa
que o Boni o chamou pra Rede Globo.
E Dias Gomes, além de “Saramandaia”, escreveu “Bandeira 2”,
“O Bem Amado”, “Carga Pesada” e “O Berço do Herói”, adaptado pra TV, passou
a se chamar “Roque Santeiro”, de onde saiu Regina
Duarte.
A vida. Essa coisa que dá voltas.
Se você pegar cada obra dessas, você vai ver o Brasil num
formato simples, pra ser digerido pelas massas, numa TV. Obras feitas por um
cara que não teve um minuto de paz no começo da carreira. E quando teve paz,
aprendeu a esculhambar todo mundo, sem citar nomes.
Mas se você não tem TV, você não faz a menor ideia do que
estou falando. Seja você um eleitor de Bolsonaro que só vê Record, seja você um
Vila Madaleiner Cirander que diz que TV emburrece.
Qualquer coisa emburrece. Instagram emburrece. Twitter
emburrece.
Eu olho pro Dias Gomes e penso duas coisas: Como queremos
falar com o povo, se negligenciamos os canais que este povo usa? Se não falamos
com evangélicos, se não disputamos os espaços da comunicação em massa, se
brigamos em público —a briga triste e que não leva a nada de José de Abreu e
Cynara Menezes— que esquerda é essa, que não parou tudo que estava fazendo na
sexta feira a noite, no último capítulo de “Avenida Brasil”?
E ao olhar pra ele, tenho alguma esperança. Porque apanhar
por se posicionar, por ter um lado, pode levar tudo: emprego, amigos, dinheiro.
Mas não leva minhas convicções, minhas certezas, e minha capacidade de
continuar rindo, gargalhando, dessa realidade disfuncional que querem impor.
Morro, mas morro rindo de muitos de vocês.
Viva Saramandaia. Viva Dias Gomes.
Anderson França
É escritor e roteirista; carioca do subúrbio do Rio e
evangélico, é autor de "Rio em Shamas" (ed. Objetiva) e empreendedor
social, fundador da Universidade da Correria, escola de afroempreendedores
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