Ao chegar ao Rio, fui a um restaurante e na hora do café
senti um gosto estranho. Era geosmina, palavra grega. Lembrei-me de que o arroz
também já não era mais o mesmo. A geosmina não se limitava a transformar a água
de banho. Agora seria um novo componente do próprio corpo.
Andando pelas ruas de Ipanema, vejo que a chuva alagou as
ruas; o esgoto, em alguns pontos, está de novo a céu aberto.
Ocorre-me uma outra palavra nova. Foi criada pelo escritor
americano Glenn Albrecht: solastalgia. É uma combinação em inglês que une duas
palavras, solace, consolo, com nostalgia do conforto, sentimento de desolação
diante da perda de uma paisagem familiar por incêndio, inundação ou outro
desastre. No caso do Rio, a corrupção endêmica.
No meio da semana, escrevi um artigo sobre coronavírus,
afirmando que vivemos um novo tempo. Os negacionistas vão dizer sempre que nada
mudou, houve pestes no passado, falta de água no Rio; o mundo para eles é
apenas uma repetição mecânica.
Refleti um pouco sobre o grande livro de Albert Camus, “A
peste”. Ele volta à agenda de discussões porque é uma alegoria da ocupação
nazista de Paris, uma referência à guerra. No livro, Camus, através de um
personagem, afirma que o bacilo da peste nunca morre, ele adormece nas gavetas,
nas nossas roupas, esperando o momento para ressurgir.
Quem se concentra apenas na interpretação política poderá
entender que o bacilo do nazifascismo pode sempre despertar. Basta ver o
discurso de Roberto Alvim ressuscitando as ideias de Goebbels.
No entanto, há uma transformação que poderia também alcançar
a releitura de “A peste”. De Camus para nossos dias, os perigos biológicos
aumentaram muito. Bill Gates tem se dedicado a demonstrar que as pandemias
podem matar muito mais que as guerras.
Quando me atenho a uma leitura biológica do texto de Camus,
constato de fato que os bacilos a que se refere, de uma certa forma, nunca
morrem. A febre amarela, por exemplo, deu as caras de novo no Brasil; da mesma
forma, o sarampo. Estavam apenas adormecidos.
O texto de Camus é muito mais do que uma alegoria política
ou mesmo uma reflexão sobre riscos biológicos. Ele trata de relações humanas
nessas crises que nos levam ao limite.
Certamente, numa Wuhan semideserta muitos dramas e conflitos
éticos estão em curso. Aqui mesmo no Rio, a leitura mais produtiva da crise da
água não passa pela geosmina nem pelos milhões de litros de esgoto que chegam
às estações do Guandu.
Como em “A peste” de Camus, os primeiros sinais aparecem com
os ratos mortos. No Rio, foram os indícios de corrupção e incompetência que
surgiram lá atrás, pouco notados antes do fim do governo Cabral.
No caso da água, chegamos a uma situação difícil de superar.
Não somente os milhões de litros de esgoto, mas as estações de tratamento
paralisadas na Baixada Fluminense, tudo isso demanda recursos.
Há uma longa discussão sobre privatizar ou não. Defensores
da presença do estado argumentam que a Cedae dá lucros. Mas lucros para nós
talvez não sejam a questão essencial.
O problema central é a eficácia; há cidades que privatizaram
o serviço e se deram bem. Outras se dão bem com o modelo estatal. Os ratos
começam a aparecer mortos quando questões que demandam competência e seriedade
são entregues ao apetite político partidário.
Essa é a historia antiga que precisa ser mudada. Resolvê-la
pela privatização ou pela seriedade administrativa é uma tarefa que deveria
apaixonar os dois lados da discussão.
No entanto, as saídas demandam muito dinheiro, parte dele
consumido nas farras de Cabral, nas fortunas enviadas para o exterior, nas
migalhas distribuídas entre os cúmplices.
Bacilos, micróbios, vírus e bactérias — tudo isso assombra
num mundo moderno e interligado. Mas é no personagem de um bispo que se fecha
com provisões para enfrentar a crise e abandona seu povo que Camus mostra a
importância da miséria humana nas tragédias coletivas.
Ele escreveu no Pós-Guerra. De lá para cá, cresceram os
perigos biológicos, e nada indica que a humanidade tenha ampliado seu impulso
solidário.
A geosmina e a solastalgia são a herança dos sobreviventes.
Artigo publicado no jornal O Globo em 10/02/2020

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