Como enfrentar a pandemia do novo coronavírus? Essa a
questão que domina hoje o debate no Brasil e no mundo. Confinamento horizontal,
com todas as pessoas recolhidas em casa e um mínimo de contato físico entre
elas, ou confinamento vertical, quando apenas as pessoas que fazem parte do
grupo de risco, acima de 60 anos e que tenham um histórico de doenças
anteriores, ficam confinadas?
Com o rápido aumento do contágio e do número de mortes em
diferentes países, a solução pelo confinamento horizontal tem sido recomendada
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e adotada pela maioria dos países
ocidentais. Entretanto, os casos mais bem-sucedidos, Coreia do Sul, Cingapura,
Taiwan e Japão, adotaram uma estratégia diferente: incentivar o distanciamento
social (manter pelo menos dois metros de distância de outra pessoa), maximizar
o número de testes e isolar os infectados.
Independentemente da estratégia adotada, a dinâmica da
pandemia é a mesma: rápido aumento do número de pessoas contagiadas no início,
que, eventualmente, leva a um rápido aumento do número de mortes. O Brasil está
neste estágio. A questão é qual a estratégia mais eficiente no sentido de
minimizar os custos pessoais, econômicos e sociais, para fazer com que o número
de infectados pare de crescer e entre em trajetória de queda.
As duas estratégias têm custos. No confinamento horizontal,
como as pessoas não podem sair de casa, a economia é quase totalmente
paralisada, com forte queda da produção, do emprego e da renda. Dependendo do tempo
necessário para fazer com que a curva de contaminação estabilize – o que não
sabemos –, o custo econômico, social e até mesmo de vidas humanas é muito
elevado.
No caso do confinamento vertical, a economia continua
funcionando, certamente a uma taxa menor. A questão é qual a evolução da curva
de contágio e qual o número de mortes. A OMS tem declarado que os custos, em
termos de vidas humanas perdidas, nesta estratégia podem ser significativamente
maiores, em razão da maior probabilidade de contágio.
Algumas peculiaridades de países como o Brasil são
especialmente preocupantes. Nas grandes cidades brasileiras, uma boa parte da
população vive em favelas. Nessas comunidades, famílias de quatro, cinco ou
mais pessoas, de diferentes idades (crianças, adultos e idosos), vivem em
residências de um cômodo, com menos de dez metros quadrados, muitas vezes sem
janelas e, em alguns casos, sem as mais básicas condições de higiene. O
potencial de transmissão e de letalidade do vírus neste ambiente deve ser
extremamente elevado. Antes de impor um confinamento horizontal, o poder
público deveria isolar o grupo de risco, por exemplo, transferindo os idosos
para hotéis ociosos ou abrigos públicos.
Como as residências são pequenas, com pouca ventilação, é
praticamente impossível permanecer dentro de casa durante o dia. Esta,
certamente, é uma das razões pelas quais as ruas de muitas das favelas do País,
durante o dia, continuam cheias. Neste contexto, será que as crianças estão
menos expostas ao vírus nas comunidades ou nas escolas?
Como a decisão de confinar generalizadamente as pessoas
começou a ser implementada no Brasil há aproximadamente dez dias, poderemos ver
um trágico aumento do número de contaminados e de mortes nessas comunidades nas
próximas semanas.
Considerando que, no início, a dinâmica da contaminação é
similar nas duas estratégias; que cada país está num diferente estágio da
evolução da doença; que alguns dos países bem-sucedidos não fizeram
confinamento horizontal; além da precariedade das condições de moradia e
higiene nas comunidades pobres das cidades brasileiras, não temos como saber,
com certeza, qual das duas estratégias terá o menor custo em termos de vidas
humanas no Brasil. Entre outras razões, porque não sabemos quanto tempo o
confinamento terá de persistir para que a curva de transmissão se estabilize.
*Professor do departamento de economia da puc/rio, é
economista chefe da genial investimentos

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