quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

AQUECIMENTO DA ECONOMIA EXIGE TODA A CAUTELA

Editorial O Globo

PIB deve ser celebrado, mas, sem deter expansão da dívida pública, crescimento será insustentável

Há exatos dois anos, em dezembro de 2022, os analistas previam que a economia brasileira cresceria 0,75% em 2023 e 1,71% em 2024. Nesta terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o número revisado para o Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado e os dados para o terceiro trimestre deste ano. O resultado oficial: crescimento de 3,2% em 2023 e de 3,1% nos 12 meses terminados em setembro. Mesmo com a esperada desaceleração, poucos duvidam de que o PIB ficará acima de 3% em 2024. O desemprego caiu para 6,2% no trimestre encerrado em outubro, menor índice da série histórica iniciada em 2012. A superação das expectativas deve ser motivo de celebração. Mas o aquecimento da economia também exige extrema cautela.

O principal ponto de atenção é a situação fiscal, em flagrante deterioração. Pelos números divulgados ontem pelo Tesouro, o governo central registrou R$ 64,4 bilhões de déficit primário entre janeiro e outubro. No acumulado de 12 meses até outubro, foram R$ 225,3 bilhões, ou 1,9% do PIB. Apesar de o arcabouço fiscal tolerar déficit de até R$ 28,8 bilhões (0,25% do PIB) em 2024, a previsão do próprio governo é passar de R$ 64 bilhões no fim do ano, em razão das despesas excluídas da meta (“gastos parafiscais”). O déficit zero proclamado no anúncio do arcabouço se revelou uma quimera. Pela estimativa da Instituição Fiscal Independente (IFI), a dívida pública chegará a 84,5% em 2026, ante 71,7% em 2022. E não há perspectiva de que venha a cair. Sem cuidar de estabilizar a trajetória de endividamento, a ressaca do crescimento promete ser feia.

O pacote de controle de despesas anunciado na semana passada tinha como objetivo diminuir a sensação de risco fiscal, mas surtiu efeito oposto. O dólar continua a subir, e a pressão inflacionária só faz crescer. Isso aumenta a responsabilidade do Banco Central (BC). Em evento nesta semana, Gabriel Galípolo, atual diretor de Política Monetária e próximo presidente do BC, foi categórico ao descartar a sugestão de intervenção cambial feita por caciques petistas. Também tem falado em “reancorar” as expectativas inflacionárias. Com as previsões de inflação em alta e acima das metas do BC, isso se traduz na manutenção da taxa de juros em patamares altos. Crédito mais caro significa expansão mais lenta da economia.

O Brasil é incapaz de se aproximar da renda dos países ricos há décadas por ficar preso a uma dança improdutiva: dá alguns passos para a frente e outros tantos para trás. O modelo de crescimento adotado pelo governo, baseado no consumo, já revelou no passado ter fôlego curto. Agora, os dados do IBGE demonstram que o problema se repete. A taxa de investimento (indicadora da capacidade de crescimento futuro) se mantém abaixo de 18%, ante uma necessidade da ordem de 25%. Enquanto isso, houve queda preocupante no nível de poupança desde 2020 — de 17,2% para 14,9%. Isso significa menos capital disponível para investir e para a economia crescer com sustentação. De nada adianta um período de crescimento econômico acelerado se ele for revertido logo à frente — daí a insistência em medidas para assegurar expansão sustentada ao longo do tempo. Isso depende, acima de tudo, de controlar o endividamento público.

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