quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

SUPREMO ESTABELECE CRITÉRIO RAZOÁVEL PARA LIBERAR EMENDAS PARLAMENTARES

Editorial O Globo

Decisão apoiada pelo plenário tenta disciplinar uso dos recursos e exige o mínimo — transparência

Fez bem o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), em liberar o pagamento de emendas parlamentares, suspenso pela Corte em agosto até que o Congresso elaborasse regras de transparência, rastreabilidade e eficiência para aplicação desses recursos. Foi sensata também a decisão de estabelecer novos critérios de transparência que não estavam previstos no Projeto de Lei aprovado em novembro, insatisfatório para atender às exigências do Judiciário.

Embora o texto aprovado há duas semanas no Congresso tenha sido costurado pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira, do Senado, Rodrigo Pacheco, pelo governo federal e pelo próprio STF, ele ficara devendo no que diz respeito à questão central: a transparência. Por isso não são exageradas as exigências feitas por Dino em sua decisão, chancelada pela maioria do plenário.

A maior virtude é pôr fim ao segredo, frequentemente usado para ocultar interesses por trás das emendas. Além das exigências já impostas pelo projeto aprovado, as verbas das emendas de comissão e dos restos a pagar das antigas emendas do relator só poderão ser executadas se o nome do parlamentar solicitante for identificado no Portal da Transparência.

A decisão ainda tenta corrigir uma das principais distorções do mecanismo de emendas parlamentares: o uso para projetos paroquiais, em detrimento de políticas públicas consistentes. As emendas da Saúde terão de seguir orientações e critérios técnicos estabelecidos pelo Ministério da Saúde e por comissões com gestores estaduais e municipais. Nas “emendas Pix”, que enviavam recursos ao caixa de estados e municípios sem indicar o destino do dinheiro, o pagamento ficará condicionado à apresentação prévia de plano de trabalho, contendo objeto e prazo para a obra, sendo necessária aprovação pelo governo federal. Mesmo que a verba já tenha sido enviada, será preciso apresentá-lo em 60 dias. Os recursos terão de ser empregados preferencialmente em obras inacabadas.

Não faz sentido a insatisfação de parlamentares com as novas normas de transparência estabelecidas pelo STF. É verdade que a interferência do Judiciário em questões do Legislativo é sempre um ponto sensível e que a independência dos Poderes precisa ser respeitada. Mas o Supremo não foi além do que já havia decidido ao suspender o pagamento das emendas em agosto.

É um despropósito destinar em torno de R$ 50 bilhões a estados e municípios de forma obscura, sem que se saiba quem manda quanto para onde nem para quê. Além de usurpar o poder do governo eleito para planejar a aplicação do dinheiro onde é mais necessário, essa prática favorece o uso político e os casos de corrupção. Não dá para prever se a decisão do Supremo será eficaz ao disciplinar a aplicação dos recursos, para que não sejam pulverizados em obras e projetos supérfluos. Mas pelo menos impõe o mínimo: transparência.

Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário