A economia exibe um fôlego como não se via desde o início
da década passada, mas ao que tudo indica, essa performance não é sustentável
A economia brasileira teve bom crescimento no terceiro
trimestre, de 0,9% sobre o trimestre anterior, e a desaceleração esperada para
o período não veio - deve vir agora, porque na ponta há alguma perda de fôlego
da atividade. Os números do passado são vigorosos: em um ano, desde o terceiro
trimestre de 2023, o PIB cresceu 4%, e 3,1% nos quatro trimestres encerrados em
setembro em relação aos quatro anteriores. O consumo das famílias deu um salto
de 5,5% em 12 meses, e a formação bruta de capital fixo (investimentos), deu
outro maior ainda, de 10,8%. O IBGE recalculou para cima o PIB de 2023, de 2,9%
para 3,2%. Na revisão, realçou um dos motivos da expansão, o forte impulso dos
gastos públicos. O consumo do governo aumentou de 1,7% para 3,8%, mais em linha
com despesas adicionais de R$ 165 bilhões da PEC da Transição.
No ano, a economia cresceu 3,3%, com um carrego estatístico
de 3% - resultado final se no último trimestre a expansão for zero. Em
praticamente todas as séries, seja na do acumulado ao longo do ano, a da
comparação com o mesmo trimestre de 2023 e a dos quatro trimestres sobre igual
período anterior, o PIB na verdade acelerou. Os sinais de arrefecimento, que
não são agudos, ocorrem quando se considera o resultado atual com o do
trimestre anterior. A economia evoluiu 1,4% então e 0,9% agora. O avanço do consumo
das famílias, com forte número no primeiro trimestre (2,5%), reduziu-se a 1,5%.
O consumo do governo, apesar da revisão para cima de 2023, que havia recuado
0,3% no trimestre anterior, subiu para 0,8%. A formação bruta de capital fixo
caiu de 2,2% para 2,1%.
Considerada a oferta, os serviços, que somam 67,8% do PIB, e
a indústria foram o principal fator de crescimento (0,9% e 0,6%). Informação e
comunicação e outras atividades de serviços, diretamente relacionadas à
evolução dos salários e do emprego, foram os segmentos que mais cresceram no
trimestre. A construção, que vinha bem, recuou 1,7%. Na evolução anual, até o
terceiro trimestre, o crescimento dos serviços é robusto. Informática e outros
serviços avançaram 7,8% e 6,4%, respectivamente. A indústria ficou abaixo da
expectativa dos analistas. Em um ano, cresceu 3,6% e, no trimestre, 0,6%.
Com o desempenho atual, o Brasil fechará três anos com
crescimento acima de 3%, algo que não ocorre desde o triênio 2006-2008. E se a
formação bruta de capital fixo mantivesse o crescimento anual de 10,8% até o
último trimestre, seria a maior taxa desde 2010. Ao lado da menor taxa de
desemprego da série histórica, do crescimento significativo da massa salarial e
dos ganhos reais dos salários, a economia exibe um fôlego como não se via desde
o início da década passada.
Ao que tudo indica, porém, essa performance não é
sustentável. Há um debate inconcluso sobre se o Brasil tem capacidade para
crescer de forma sustentada acima de 2,5%, mas a maioria dos economistas se
inclina por uma resposta negativa. Há o reconhecimento de que as reformas já
realizadas abriram espaço a um potencial maior de expansão, que, no entanto,
não seria tão significativa. A prova prática da teoria seria, no entanto, o
prosaico comportamento dos preços. A inflação, e não apenas as expectativas, está
se distanciando da meta e ultrapassou seu teto, de 4,77% (IPCA-15) em novembro.
Para além da polêmica de se a meta de 3% é ou não factível, o IPCA está subindo
pelo aquecimento da economia. Há fatores externos influindo, como a nova
disparada do dólar, mas ela ainda não se manifestou plenamente nos preços, o
que ocorrerá se a moeda americana mudar para o patamar de R$ 6.
Outro indicador de baixa sustentabilidade do crescimento e
do aumento dos gastos fiscais pode ser visto pelo aumento das necessidades de
financiamento (indica um déficit que terá de ser financiado por poupança
externa), que cresceram de R$ 46,7 bilhões nos três trimestres de 2023 para R$
181,6 bilhões agora. Além disso, há maior distanciamento entre a taxa de
poupança da economia e a de investimentos. Hoje os investimentos somam 17,6% do
PIB, ante 16,4% do trimestre anterior, ainda distantes dos 20%-22% registrados
em alguns anos da década passada. A poupança para financiá-los, com a
despoupança do aumento dos gastos do governo, caiu no período de 15,4% para
14,9%, a menor em 4 anos.
Por esse motivo, o déficit em transações correntes vem
subindo nos últimos meses. Nos 12 meses encerrados em outubro ele somou US$
49,2 bilhões, ante US$ 26,3 bilhões em outubro de 2023 no mesmo intervalo de
tempo. Boa parte do déficit se deve ao menor ritmo das exportações e a um muito
maior das importações, dado o aquecimento da economia. O saldo externo de bens
e serviços declinou R$ 72,6 bilhões nos 12 meses findos no terceiro trimestre
de 2024.
O governo não tem demonstrado interesse em fazer o ajuste
fiscal necessário, e o Banco Central, diante da inflação em alta, aumentará uma
carga de juros já muito forte. A taxa real, medida pelos juros futuros de um
ano e mediana do IPCA, já ultrapassou 9% no último dia de novembro. Isso
significa que a economia, que poderia crescer em ritmo pouco menor e seguro,
terá de desacelerar à força pelo aumento do custo do dinheiro, com mais
inflação no meio do caminho.

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