Militarização do ensino não se justifica nem do ponto de
vista pedagógico nem do orçamentário
A implantação de escolas cívico-militares, que ganhou
impulso no governo Jair
Bolsonaro, sempre despertou controvérsia. Agora, o plenário do Supremo
Tribunal Federal (STF) se prepara para julgar sua constitucionalidade. No fim
do mês passado, o ministro Gilmar Mendes derrubou uma decisão do Tribunal de
Justiça de São
Paulo que impedia a instalação desses estabelecimentos por meio de um
programa do governador Tarcísio
de Freitas (Republicanos).
Independentemente dos aspectos jurídicos que cercam a
questão, escolas militares ou cívico-militares não são um bom modelo para o
país. Estabelecimentos de ensino não precisam ser militarizados para impor
disciplina. Além disso, militares não estão familiarizados com as carências
da educação brasileira.
Se a preocupação é melhorar a qualidade do aprendizado, mais lógico seria
reproduzir modelos de sucesso, como o Ceará, que transformou o ensino a partir
de escolas regulares, iguais para todos.
O modelo de escolas cívico-militares é adotado eventualmente
desde os anos 1990. No governo Bolsonaro, foi alçado à categoria de política
pública. Depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, os ministérios da Educação e da Defesa decidiram acabar gradualmente com
o programa, mas ele sobrevive em estados e municípios. Levantamento
do GLOBO junto às redes estaduais mostrou que há pelo menos 569
estabelecimentos desse tipo em 16 unidades da Federação.
Em São Paulo, o governo Tarcísio pretende implantar 45
escolas cívico-militares a partir de 2026. Professores, pais de alunos com até
16 anos e estudantes com mais de 16 precisarão chancelar a iniciativa por meio
de votação. Ainda em fase embrionária, a medida agita a rede estadual, com
denúncias de repressão a professores contrários e protestos de alunos.
Não faz sentido criar dois modelos dentro de uma mesma rede.
O desejável é que as diretrizes da Secretaria de Educação sejam aplicadas a
todas as escolas. E que todos os estudantes sejam submetidos às mesmas normas
pedagógicas, disciplinares e avaliação. A solução para a violência que assusta
muitos estabelecimentos não é militarizá-los, mas cuidar da segurança em
parceria com as autoridades competentes.
Escolas cívico-militares não se justificam nem do ponto de
vista pedagógico nem orçamentário. Apenas no período 2020-2022, o programa
consumiu R$ 94 milhões, tornando-se um dos 15 maiores gastos das verbas
discricionárias da educação básica.
Por mais que o programa seja questionável, não cabe ao
Judiciário se intrometer em políticas pedagógicas. Governadores têm autonomia
para decidir os rumos da educação, desde que sigam as diretrizes do MEC. O
ensino brasileiro padece de diversas carências, como deficiências na formação
de professores, resultados fracos em avaliações nacionais e internacionais,
instalações precárias e falta de equipamentos. Certo seria se dedicar a tais
problemas e deixar de lado a militarização. Escola não é quartel.

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