O novo quadro já está causando a reversão de
expectativas, com especialistas e consultorias reduzindo previsões para este
ano e o próximo
Dois dos principais indicadores do mercado de trabalho deram
sinais distintos nas últimas semanas. De um lado, a Pesquisa Nacional por
Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), elaborada pelo IBGE, registrou taxa de
desemprego de 6,2% no trimestre encerrado em outubro - a menor da série
histórica iniciada em 2012, abaixo dos 6,8% do trimestre terminado em julho. De
outro, os dados do Caged do Ministério do Trabalho e Emprego, que só inclui
empregos formais, apesar de acumular 2,1 milhões de vagas criadas no ano até
outubro, acima do 1,5 milhão de 2023, aponta que a abertura de postos vem
desacelerando. Em outubro foram 132,7 mil, abaixo das estimativas do mercado e
o menor número do ano.
Entre julho e outubro, quase 600 mil pessoas arrumaram
trabalho, elevando para 103,6 milhões o número de empregados total. Em
comparação com o mesmo trimestre de 2023, mais 3,4 milhões de pessoas entraram
no mercado. O número de desocupados foi reduzido a 6,8 milhões de pessoas. Isso
ocorreu mesmo com o aumento da força de trabalho - pessoas ocupadas ou em busca
de empregos com 14 anos ou mais de idade -, que chegou a 110,4 milhões no
trimestre móvel encerrado em outubro, também recorde da série histórica, 0,9% a
mais do que no trimestre móvel anterior, encerrado em julho, com mais 989 mil
pessoas, e 1,8% acima de igual período de 2023, ou mais 2 milhões de pessoas.
Segundo o IBGE, mais da metade das novas ocupações surgiu na
indústria. Comércio, construção e serviços contribuíram com o restante. Na
construção, o destaque foi o emprego em edificações não ligadas à
infraestrutura e, nos serviços, os prestados às famílias.
O mercado de trabalho superou os melhores resultados
anteriores, registrados no governo de Dilma Rousseff antes da grande crise
econômica que se seguiu em seu mandato. A menor taxa de desemprego até então
ocorreu há 11 anos, no final de 2013, durante o primeiro mandato de Dilma
Rousseff, quando caiu para 6,3%. Em dezembro de 2014, o número de desempregados
caíra para 6,6 milhões.
O dinamismo do mercado de trabalho reflete em parte os
avanços garantidos pela reforma trabalhista, que favoreceu a expansão do
emprego formal com a redução de alguns custos, e o crescimento da economia. O
nível de atividade avançou mais que as expectativas com a expansão fiscal
promovida pelo governo Lula, elevando as previsões de aumento do Produto
Interno Bruto (PIB) para acima de 3%.
No entanto, há indicações de que o mercado de trabalho pode
não sustentar o atual ritmo de expansão. A principal sinalização é o fato de
que o crescimento recente está ocorrendo sobretudo no mercado informal. O
número de empregados no setor privado com carteira assinada cresceu 1,2% no
trimestre terminado em outubro e 3,7% em um ano. Já os sem carteira aumentaram
mais do que o dobro, 3,7% e 8,4%, respectivamente. A taxa de informalidade da
população ocupada, que havia caído de 39,1% em julho de 2023 para 38,7% no
mesmo mês deste ano, subiu para 38,9% em outubro.
Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados vão
na mesma direção e complementam o quadro. Apesar de o Caged estar acumulando
2,1 milhões de vagas criadas no ano até outubro, acima do 1,5 milhão de 2023, a
abertura de postos vem desacelerando. Houve fechamento de postos na
agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura e construção.
Outro sinal de esfriamento do mercado de trabalho foi a
queda do salário médio de admissão de novos empregados com carteira assinada.
Anteriormente, os salários pagos aos novos empregados eram iguais ou até
ultrapassavam os dos que iriam substituir, o que significava mercado mais
aquecido, de demanda superior à oferta, uma vez que se espera que os novatos
ganhem menos. A redução no ritmo de progressão desse salário de entrada
evidencia o início de maior disponibilidade de mão de obra.
O novo quadro já está causando a reversão de expectativas.
Especialistas e consultorias reduziram as previsões para este ano e falam na
abertura de 1,8 milhão de vagas (Valor, 28/11), número bem inferior ao
acumulado até outubro, o que significa o aumento das demissões neste fim de ano
a um ritmo bem superior ao das novas contratações.
Os cortes chegaram também às projeções para o próximo ano,
para quando se fala na criação de 1 milhão de novas vagas ou, na melhor das
hipóteses, em uma estabilização, coerente com uma mais que provável
desaceleração. Há cada vez mais sinais de que a economia está crescendo acima
do seu potencial e as projeções para o ano já superam 3%. O último boletim
Focus indica que a expectativa para o comportamento do PIB atingiu 3,12% na
última semana, com claro viés de alta. Da mesma forma, a desaceleração esperada
para o terceiro trimestre não ocorreu.
O cenário de riscos foi agora reforçado pela turbulência
causada pela decepção com as medidas de ajuste fiscal. A escalada do dólar e
dos juros também cortou as previsões para a expansão econômica do próximo ano,
de volta aos mornos 2%, com impacto certeiro no mercado de trabalho, mais uma
vez vítima dos descaminhos fiscais.

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