terça-feira, 3 de dezembro de 2024

MERCADO DE TRABALHO DÁ SINAIS DE MENOR EXPANSÃO

Editorial Valor Econômico

O novo quadro já está causando a reversão de expectativas, com especialistas e consultorias reduzindo previsões para este ano e o próximo

Dois dos principais indicadores do mercado de trabalho deram sinais distintos nas últimas semanas. De um lado, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), elaborada pelo IBGE, registrou taxa de desemprego de 6,2% no trimestre encerrado em outubro - a menor da série histórica iniciada em 2012, abaixo dos 6,8% do trimestre terminado em julho. De outro, os dados do Caged do Ministério do Trabalho e Emprego, que só inclui empregos formais, apesar de acumular 2,1 milhões de vagas criadas no ano até outubro, acima do 1,5 milhão de 2023, aponta que a abertura de postos vem desacelerando. Em outubro foram 132,7 mil, abaixo das estimativas do mercado e o menor número do ano.

Entre julho e outubro, quase 600 mil pessoas arrumaram trabalho, elevando para 103,6 milhões o número de empregados total. Em comparação com o mesmo trimestre de 2023, mais 3,4 milhões de pessoas entraram no mercado. O número de desocupados foi reduzido a 6,8 milhões de pessoas. Isso ocorreu mesmo com o aumento da força de trabalho - pessoas ocupadas ou em busca de empregos com 14 anos ou mais de idade -, que chegou a 110,4 milhões no trimestre móvel encerrado em outubro, também recorde da série histórica, 0,9% a mais do que no trimestre móvel anterior, encerrado em julho, com mais 989 mil pessoas, e 1,8% acima de igual período de 2023, ou mais 2 milhões de pessoas.

Segundo o IBGE, mais da metade das novas ocupações surgiu na indústria. Comércio, construção e serviços contribuíram com o restante. Na construção, o destaque foi o emprego em edificações não ligadas à infraestrutura e, nos serviços, os prestados às famílias.

O mercado de trabalho superou os melhores resultados anteriores, registrados no governo de Dilma Rousseff antes da grande crise econômica que se seguiu em seu mandato. A menor taxa de desemprego até então ocorreu há 11 anos, no final de 2013, durante o primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando caiu para 6,3%. Em dezembro de 2014, o número de desempregados caíra para 6,6 milhões.

O dinamismo do mercado de trabalho reflete em parte os avanços garantidos pela reforma trabalhista, que favoreceu a expansão do emprego formal com a redução de alguns custos, e o crescimento da economia. O nível de atividade avançou mais que as expectativas com a expansão fiscal promovida pelo governo Lula, elevando as previsões de aumento do Produto Interno Bruto (PIB) para acima de 3%.

No entanto, há indicações de que o mercado de trabalho pode não sustentar o atual ritmo de expansão. A principal sinalização é o fato de que o crescimento recente está ocorrendo sobretudo no mercado informal. O número de empregados no setor privado com carteira assinada cresceu 1,2% no trimestre terminado em outubro e 3,7% em um ano. Já os sem carteira aumentaram mais do que o dobro, 3,7% e 8,4%, respectivamente. A taxa de informalidade da população ocupada, que havia caído de 39,1% em julho de 2023 para 38,7% no mesmo mês deste ano, subiu para 38,9% em outubro.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados vão na mesma direção e complementam o quadro. Apesar de o Caged estar acumulando 2,1 milhões de vagas criadas no ano até outubro, acima do 1,5 milhão de 2023, a abertura de postos vem desacelerando. Houve fechamento de postos na agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura e construção.

Outro sinal de esfriamento do mercado de trabalho foi a queda do salário médio de admissão de novos empregados com carteira assinada. Anteriormente, os salários pagos aos novos empregados eram iguais ou até ultrapassavam os dos que iriam substituir, o que significava mercado mais aquecido, de demanda superior à oferta, uma vez que se espera que os novatos ganhem menos. A redução no ritmo de progressão desse salário de entrada evidencia o início de maior disponibilidade de mão de obra.

O novo quadro já está causando a reversão de expectativas. Especialistas e consultorias reduziram as previsões para este ano e falam na abertura de 1,8 milhão de vagas (Valor, 28/11), número bem inferior ao acumulado até outubro, o que significa o aumento das demissões neste fim de ano a um ritmo bem superior ao das novas contratações.

Os cortes chegaram também às projeções para o próximo ano, para quando se fala na criação de 1 milhão de novas vagas ou, na melhor das hipóteses, em uma estabilização, coerente com uma mais que provável desaceleração. Há cada vez mais sinais de que a economia está crescendo acima do seu potencial e as projeções para o ano já superam 3%. O último boletim Focus indica que a expectativa para o comportamento do PIB atingiu 3,12% na última semana, com claro viés de alta. Da mesma forma, a desaceleração esperada para o terceiro trimestre não ocorreu.

O cenário de riscos foi agora reforçado pela turbulência causada pela decepção com as medidas de ajuste fiscal. A escalada do dólar e dos juros também cortou as previsões para a expansão econômica do próximo ano, de volta aos mornos 2%, com impacto certeiro no mercado de trabalho, mais uma vez vítima dos descaminhos fiscais.

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