Perpetua-se um ciclo em que austeridade não resgata
economias, mas aprisiona sociedades em um labirinto de desigualdades
A política econômica de Javier Milei, fundamentada no
ultraliberalismo e apresentada sob o rótulo de austeridade, tornou-se o novo
experimento de um modelo que há décadas flerta com a eficiência econômica em
detrimento do custo social. Embora tenha abandonado a retórica da dolarização,
Milei mantém a ênfase em cortes drásticos de gastos públicos e reformas
econômicas amplamente elogiadas por mercados e instituições financeiras
internacionais. No entanto, as contradições de sua estratégia começam a se impor,
com manchetes ressaltando que, "surpreendentemente", a economia
argentina continua encolhendo mesmo após a implementação dessas medidas.
Enquanto a pobreza atinge 53% da população e o poder de
compra dos salários caiu 10%, o ajuste fiscal é celebrado como sinal de
responsabilidade. Clara Mattei, autora de A ordem do capital, argumenta
que a austeridade é ideológica, não técnica, pois reforça hierarquias e
justifica sacrifícios sociais em nome de um progresso ilusório. Em vez de
corrigir desequilíbrios, a austeridade os aprofunda, precarizando serviços e
agravando a pobreza, enquanto investidores ganham a curto prazo.
A história argentina oferece outro exemplo
de como políticas de austeridade podem aprofundar crises. Durante o governo de
De la Rúa, em 2001, os ajustes fiscais massivos, recomendados pelo FMI,
culminaram em uma grave crise política e social, com tumultos, renúncia
presidencial e aprofundamento da recessão. Essa memória recente torna ainda
mais preocupante a insistência atual em medidas que desconsideram seus impactos
sobre a maioria da população.
No Brasil, o pacote de cortes de gastos do governo Lula,
apresentado pelo ministro Fernando Haddad, enfrenta um dilema semelhante.
Embora se diferencie do radicalismo de Milei, as medidas também são avaliadas
principalmente pelo impacto em índices fiscais e pela receptividade do mercado.
Aqui, novamente, emerge a crítica de Mattei: políticas de austeridade, mesmo em
versões mitigadas, continuam priorizando objetivos econômicos abstratos sobre
as necessidades concretas da população.
O debate brasileiro reflete a dualidade entre
responsabilidade fiscal e políticas sociais. No discurso oficial, o governo
tenta equilibrar a busca por credibilidade perante o mercado com compromissos
históricos de combate à pobreza e redução das desigualdades. Porém, o desafio
persiste: até que ponto é possível harmonizar essas duas agendas sem reproduzir
os mesmos erros já observados em outros contextos? A história sugere que,
quando colocados em confronto, os interesses dos mercados tendem a prevalecer
sobre os das maiorias. Aplausos!
O uso da palavra "surpreende" nas análises
financeiras sobre o encolhimento argentino revela a miopia dessa abordagem. Não
há surpresa quando economias encolhem sob austeridade. O verdadeiro
"surpreendente" está em ignorar que custos humanos são consequências
inevitáveis, não externalidades. Essa dissonância entre a retórica e os
resultados concretos exemplifica o caráter ideológico da austeridade, apontado
por Mattei: ao posicionar os cortes de gastos como solução inevitável, naturaliza-se
o sofrimento como parte do progresso, pavimentando o caminho para o fascismo.
A defesa da austeridade costuma se ancorar na noção de
eficiência. Governos são comparados a famílias ou empresas, que não podem
gastar mais do que arrecadam. No entanto, essa analogia simplista ignora as
particularidades do papel estatal. Enquanto famílias ajustam seus gastos para
sobreviver, governos têm a responsabilidade de garantir bem-estar e fomentar
desenvolvimento. Assim, cortar investimentos em áreas essenciais pode gerar
economias imediatas, mas compromete a capacidade de crescimento sustentável a
longo prazo.
Ao pedir sacrifícios em nome de ajustes fiscais, a
austeridade reafirma-se como o "caminho da servidão", parafraseando
Hayek. Contudo, esse novo caminho não é imposto por Estados controladores, mas
por mercados que deliberadamente ignoram os custos humanos em sua busca
incessante por eficiência econômica. Assim, perpetua-se um ciclo em que
austeridade não resgata economias, mas aprisiona sociedades em um labirinto de
desigualdades.
A experiência de Milei na Argentina, junto a outros exemplos
históricos, deveria servir de alerta. Ajustes fiscais que ignoram os mais
vulneráveis não são apenas insustentáveis, mas moralmente questionáveis.
*Mestre em ciências em integração da América Latina pela
USP, doutor em relações internacionais pela UnB, professor e coordenador do
curso de relações internacionais na Uninter

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