O que um soneto de Camões nos ensina sobre os medos de
hoje
Muita gente conhece o início do Soneto 53 (outros
atribuem-lhe o número 45) de Luís de Camões:
"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a
confiança / Todo o mundo é composto de mudança / Tomando sempre novas
qualidades". Menos conhecido e citado é o seu fim, que diz: "E, afora
este mudar-se cada dia / Outra mudança faz mor espanto / Que não se muda já
como soía".
Talvez seja por duas palavras desusadas no português
contemporâneo, "mor" por maior, e sobretudo "soía" com o
sentido de ser hábito ou costume, que o fim do soneto é menos citável ou hoje
menos compreensível. Porque o que Camões nos está a dizer é, fundamentalmente,
que a mudança já não é o que era. A mudança mudou.
Não admira que Camões
sentisse isso, uma vez que ele nasceu (segundo se crê, faz agora 500 anos)
numa das épocas da história que mais mudanças viram, da expansão da imprensa às
guerras de religião na Europa e sobretudo à noção para eles inédita do Novo
Mundo.
Por isso ele sentia que a mudança já não
era apenas aquela sensação a que os gregos antigos chamavam de "panta
rhei", ou seja, de que "tudo flui", e com a qual ele começa o
poema.
E nem sequer apenas uma mudança cíclica, expectável, como
nas estações do ano, a que ele dedicou o meio do poema ("O tempo cobre o
chão de verde manto / Que já coberto foi de neve fria / E, em mim, converte em
choro o doce canto"). Nada disso: há também outro tipo de mudança, que não
só muda as coisas, mas que muda a sua própria textura ou padrão.
Pensamos muito nas coisas que mudam, mas pensamos pouco na
própria mudança em si. Mas fazemos mal porque este tema aparentemente vago e
teórico tem sérias consequências práticas. É que, na verdade, não há só uma
mudança, mas vários tipos de mudança. A alguns tipos de mudança, gostando ou
não, estamos acostumados como humanos que somos.
São eles a mudança constante, incremental ou cíclica. A
outros tipos de mudança temos resistências emocionais, como no caso da mudança
irreversível. E outros ainda —como é o caso da mudança exponencial— são
difíceis até de abarcar cognitivamente. O cérebro humano recusa-se a querer
compreender; ficamos perplexos e desorientados; perdemos a confiança nas
lideranças, revoltamo-nos e queremos voltar ao passado, mesmo sabendo que é
impossível.
Como é evidente, estamos a viver um desses momentos. Não só
a mudança mudou, como há várias mudanças que mudaram ao mesmo tempo, e todas
elas de tipos diferentes.
A pandemia trouxe uma mudança de tipo exponencial: o cérebro
tinha dificuldade em aceitar que a infeção de um indivíduo seria amanhã de dez,
cem, mil, 1 milhão e assim sucessivamente. Mas o desenvolvimento da
inteligência artificial traz também uma mudança de tipo exponencial, e ainda
estamos só no início.
A mudança trazida pelas alterações climáticas é disruptora,
brutal e provavelmente irreversível. Mudanças trazem outras mudanças: migrações
em massa, guerras, colapso institucional, quem sabe mais o quê?
Um dos nossos maiores problemas hoje é que as pessoas têm
medo da mudança, os reacionários faturam com isso, e os democratas e
progressistas não sabem explicar como prever, gerir e se beneficiar dessa
mudança. Quem souber fazê-lo, em cada uma das áreas que listei acima,
encontrará o caminho para sossegar a opinião pública e juntar as vontades
coletivas. Até lá, o medo da mudança gerará monstros.

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