“Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido”. Hugo
Motta chamou o fundamento da Constituição para uma releitura corporativista do
valor da representação, que respaldaria – em nome da soberania popular, como se
expressão da democracia – as distribuições autoritárias e opacas de dinheiros
públicos na forma de emendas parlamentares.
Esse é o tamanho do buraco. Que continuará a ser cavado.
Consagrada a perenidade. Sai Alcolumbre, entra Alcolumbre. Sai Lira, entra
Lira. Ainda estamos aqui. Aclamado o orçamento secreto. Reeleito o esquema de
perversão das emendas.
Votação que é produto de acordo pela defesa da
“prerrogativa” de o Congresso disparar obscuramente bilhões de dinheiros
públicos e garantir cabresto sobre currais Brasil adentro – acordo pela
manutenção da autonomia degenerada do Legislativo, fundada no controle
absolutista de fundos orçamentários.
Foi em decorrência desse pacto que se
uniram lulistas e bolsonaristas. Bolsonaro, empregado de Valdemar, não soltou a
ordem unida por Alcolumbre e Motta em troca de apoio à agenda de anistia aos
condenados do 8 de janeiro etc. Mandou que os seus lhes votassem para que o PL
tenha lugar nas comissões e alguma cota no ratatá das emendas de comissão.
Decorre dessa acomodação o desaparecimento das disputas. Não
há oposição. Porque ninguém quer perder boquinha. Os parlamentares, com raras
exceções, calam-se, transformados em vereadores federais, ante o poder dos
donos do Congresso, os que dominam a grana e autorizam as destinações.
“Não existe ditadura com Parlamento forte” – discursou
Motta. Com o orçamento secreto forte, existe o quê? O Parlamento, em termos
republicanos, é fraco. Rico e fraco. Fortes são os liras. Os operadores da
riqueza. O funcionamento do Congresso é imperial – e os congressistas,
instrumentalizados, falando em independência do Legislativo... Que tem suas
comissões aterradas, que vive sob regime de urgências, que vota sem saber no
quê.
O Parlamento altivo reelegeu a sua subordinação a um punhado
de patronos – os que apontam, entre os parlamentares, os que podem apadrinhar
emendas. O Senado elegeu um dos senhores do orçamento secreto. A Câmara, um vip
do orçamento secreto. Esses são os independentes de verdade.
Ainda Hugo Ulysses Motta: “Todos passamos, mas as
instituições ficam”. Todos passamos, o orçamento secreto fica. É uma
instituição – a “transformação histórica” da era Lira. A cuja proteção vêm
Alcolumbre e Motta. Que doravante irão, pós-Lira, conforme agendou Dino, sentar
com o senador-togado por um encaminhamento que, sem ferir as vaidades,
desembarace o leito de continuidade do orçamento secreto. O governo mediará a
conversa. O cenário menos ruim para Lula nos próximos dois anos depende desse
arranjo.

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