Em comparação a 2019, há 21,6 milhões fontes adicionais
de rendimento na economia, o que tem dado fôlego à demanda das famílias
O consumo das famílias tem um papel de destaque no
crescimento da economia brasileira nos últimos anos, especialmente no período
entre 2021 e 2024. Nesses quatro anos, avançou a uma média anual de 3,85%,
acima dos 3,6% da média do PIB. Novas fontes de renda ajudam a explicar esse
desempenho do consumo privado, cujo ritmo arrefeceu em 2025 e pode ter alguma
reaceleração em 2026, mas sem voltar ao ritmo de 2021 a 2024, dado o nível
elevado dos juros e do endividamento das famílias, que tem provocado o aumento
da inadimplência. Nesse cenário, a demanda das famílias deve passar de um
crescimento na casa de 1,5% no ano passado para 2% neste ano.
O economista-chefe da corretora Tullett
Prebon, Fernando Montero, tem chamado a atenção para o salto nas novas fontes
de rendimento de 2019 para cá. Nesses seis anos, surgiram 21,6 milhões fontes
adicionais de renda, de acordo com levantamento de Montero. Em comparação a
2019, a economia tem mais 9,1 milhões de trabalhadores ocupados, mais 6 milhões
de aposentados ou beneficiários de programas assistenciais, mais 5,5 milhões de
beneficiários do Bolsa Família e mais 1 milhão de pessoas que recebem o seguro-desemprego
(incluídos aí os pescadores que ganham o seguro-defeso). Montero faz a
comparação com 2019 para tirar o impacto do auxílio emergencial dos anos da
pandemia da covid-19, que começou em 2020.
Essa alta impressionante de fontes de rendimento é um dos
fatores que sustentaram o crescimento mais forte após a pandemia. “Cada nova
fonte de renda significa confiança para uma família e colateral [garantia] para
um banco”, diz Montero. Nesse sentido, uma nova fonte de renda não é apenas
mais renda, afirma ele.
Com um novo emprego ou um novo benefício previdenciário ou
assistencial, a família tem maior disposição para consumir, por ter mais
confiança. Ao mesmo tempo, a renda serve como garantia para empréstimos. Nessas
21,6 milhões de fontes adicionais de rendimentos desde 2019, é possível que
haja pessoas recebendo mais de um deles ao mesmo tempo - alguém pode ter
conseguido um novo emprego e ter se aposentado, por exemplo. Eles não são
necessariamente excludentes.
No quarto trimestre de 2025, o total de trabalhadores
ocupados chegou a 103 milhões, recorde na série histórica iniciada em 2012,
refletindo a força do mercado de trabalho. Já o número de aposentados e
pensionistas e beneficiários de programas assistenciais atingiu 41,6 milhões, e
só não é maior porque há uma fila de cerca de 3 milhões de pessoas esperando
benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O Bolsa Família, por sua vez, tinha em dezembro 18,7 milhões
de beneficiários. Depois de atingir 21,6 milhões em 2022, o número recuou nos
últimos três anos, devido a uma revisão mais rigorosa do cadastro, que tem
levado à redução de famílias formadas por apenas uma pessoa, por exemplo. Já o
seguro-desemprego alcançou 7,7 milhões de pessoas. Somando todos esses itens,
são quase 171 milhões de fontes de renda, 21,6 milhões a mais que em 2019 e 140
mil a mais do que em 2024 -nesse caso, um aumento pequeno.
Os grandes agregados de renda cresceram muito nos últimos
anos, nota Montero. Na média dos três meses até dezembro de 2025, a chamada
Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, em seu conceito restrito, ficou
5,5% acima da média do mesmo período de 2024, descontada a inflação. Se
comparada com a média do quarto trimestre de 2019, o aumento acima da inflação
foi de 20%, segundo números do Banco Central (BC). Nesse conceito, estão
incluídos rendimentos do trabalho, benefícios previdenciários e transferências
de programas sociais, excluindo recursos de aluguéis e aplicações financeiras e
descontando os gastos com impostos. Na média dos últimos três meses de 2025,
esse agregado atingiu R$ 607,3 bilhões.
Essas novas fontes de renda e o aumento dos rendimentos das
famílias têm hoje como contraponto o que se passa no crédito, o que segura uma
alta mais forte do consumo, segundo Montero. A inadimplência atingiu o recorde
de 4,2% em janeiro. Além disso, o endividamento das famílias em dezembro de
2025 (dado mais recente disponível) foi equivalente a 49,7% da renda anual,
próximo do recorde de 49,9% de julho de 2022. Para completar, há um aumento da
participação de linhas de maior risco, como cheque especial e o rotativo do
cartão de crédito.
Em resumo, esse impacto dos juros elevados sobre o crédito
tende a frear em parte o consumo, ofuscando o efeito ainda positivo do mercado
de trabalho sobre a renda. Com inadimplência em alta e o endividamento elevado
se contrapondo à renda, o espaço para cortes da Selic pode ser maior do que se
imagina, especialmente se o câmbio ficar comportado, avalia Montero. A inflexão
dos juros, que deve começar com uma redução da taxa neste mês, ocorrerá num
cenário em que as famílias estão mais endividadas.
Com isso, o consumo das famílias deve mostrar um crescimento
mais modesto em 2025 e 2026 do que entre 2021 a 2024. Para o ano passado, o
Bradesco estima uma expansão de 1,5% desse componente da demanda, esperando que
o PIB tenha avançado 2,2%, números que serão conhecidos amanhã. Para 2026, o
banco prevê um consumo das famílias crescendo 2,1%, acima do 1,5% projetado
para o PIB. Além do impulso do mercado de trabalho, a isenção do Imposto de
Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento acima da inflação do
salário mínimo poderão dar fôlego para a demanda das famílias, na visão do
Bradesco. Não é um ritmo desprezível, mas o impacto da renda encontra na
situação do crédito um contraponto que tira parte do ímpeto do consumo, como
aponta Montero.

Nenhum comentário:
Postar um comentário