terça-feira, 25 de outubro de 2016

ESCOLA DE FRAUDES

Da Veja
Duas das maiores universidades privadas do Brasil, que juntas têm mais de 400 000 estudantes matriculados, manipularam os resultados do Enade, o exame que mede a qualidade do ensino superior.
A Universidade Nove de Julho (Uninove) ocupou-se em distorcer os resultados entre os anos de 2013 e 2014, pelo menos. 
A Universidade Paulista (Unip), hoje o terceiro maior grupo educacional do país, também promoveu as mesmas maracutaias, só que entre 2010 e 2012.
As duas tinham um objetivo claro: aumentar a nota final de seus cursos no Enade e, com isso, fazer propaganda de uma qualidade que, na realidade, podem não ter. A Uninove é a instituição em que “seu sonho acontece”.
A Unip promove-se como “a universidade particular preferida dos que contratam”. VEJA teve acesso a um conjunto de vídeos, e-mails, áudios e documentos, nos quais as fraudes ficam patentes.
Durante nove semanas, a revista investigou o assunto. Entrevistou cerca de cinquenta pessoas, entre professores, alunos e advogados.
Para ler a reportagem na íntegra, compre a edição desta semana de VEJA que já está nas bancas.
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O PREGADOR DE INTOLERÂNCIA

Do O Globo

RIO — Na campanha, o senador Marcelo Crivella (PRB) não diz o que escreveu. Em seu livro “Evangelizando a África”, em que faz um relato dos dez anos em que viveu no continente, o candidato a prefeito que hoje se apresenta como tolerante e ecumênico fez pesadas críticas a praticamente todas as religiões, apresentadas como “diabólicas”, e classificou a homossexualidade de “conduta maligna” e de “terrível mal”.
Na publicação, afirma que a Igreja Católica e outras religiões que se denominam cristãs “pregam doutrinas demoníacas.” Segundo ele, a Igreja Católica “tem pregado para seus inocentes seguidores a adoração aos ídolos e a veneração a Maria como sendo uma deusa protetora”. Crivella dispara também contra o espiritismo, o hinduísmo e religiões africanas (que, segundo ele, abrigam “espíritos imundos”).
Com o título de “Mutis, Sangomas and Nyangas: Tradition or Witchcraft?” (“Mutis, sangomas e nyangas: Tradição ou feitiçaria?”), o livro foi publicado em inglês em 1999, quatro anos depois de Sérgio Von Helde, então bispo da Igreja Universal do Reino de Deus — a mesma de Crivella —, ter chutado uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa da TV Record. Na ocasião, Von Helde classificou a imagem de boneco feio, horrível e desgraçado.
A edição brasileira foi lançada pela Editora Gráfica Universal, que pertence à Igreja Universal, em 2002, ano em que Crivella seria eleito senador pela primeira vez. Citado em pelo menos três publicações estrangeiras que tratam da atuação da Universal e de outras igrejas evangélicas na África, o livro, no Brasil, parece ter sido condenado à clandestinidade.
Uma pesquisa no Google revela que “Evangelizando a África” é citado apenas em sites de livrarias que vendem publicações usadas e em duas edições de “Senadores — Dados biográficos”, do Senado Federal. Por telefone, a editora informou que o livro está esgotado.
A edição brasileira traz diversas fotos de cultos, alguns deles com a presença de um jovem Crivella no comando de rituais de exorcismo. Quando escreveu a obra, ele era um dos responsáveis pela implantação de sua igreja na África.
Entre outros ataques, o senador diz que religiões africanas praticam o sacrifício de crianças. Afirma também que “as tradições africanas permitem toda sorte de comportamento imoral, até mesmo com crianças de colo.”
Ele classifica de “ritual satânico que deve ser evitado” a tradição de se comer alimentos relacionados a práticas religiosas como o sacrifício de animais. Segundo Crivella, “quando a pessoa engole aquela comida, ela está, de uma certa forma, aceitando o espírito daquele ídolo para o qual a comida foi sacrificada.”
O bispo, hoje licenciado, da Igreja Universal também afirma que o trabalho de sacerdotes de religiões africanas — chamados no livro de sangomas e nyangas — “se tornou um grande negócio na África, porque é motivado pelo maldito amor ao dinheiro”. Na introdução à edição brasileira, os editores afirmam que sangomas e nyangas “são feiticeiros e bruxos, conhecidos no Brasil como pais, mães e filhos-de-santo.”
“Evangelizando a África” responsabiliza práticas religiosas pelas dificuldades do continente ao dizer que “na miséria e na pobreza, vemos o ódio do diabo e seus demônios que trabalham descaradamente através de tantas seitas e religiões”.
A Igreja Universal não é citada como uma religião: “Queremos na realidade, apresentar o Deus vivo, o Criador dos céus e da terra, e a Sua Santa Palavra”, escreve Crivella. A condenação a outras manifestações de fé é bem ampla: “Ao redor do mundo, em todas as nações, achamos centenas de crenças, seitas e religiões. Elas podem se diferenciar uma das outras, mas todas têm um ponto em comum: levar as pessoas a adorarem e a aceitarem os espíritos”.
Ao tratar das religiões orientais, o evangelho de Crivella é categórico: “No mundo amarelo, os espíritos imundos vêm disfarçados de forças e energias da natureza”. Situação parecida, afirma, com a verificada no “mundo vermelho”, onde vivem os indianos, “escravos de uma falsa religião”. Para o candidato, os hindus são proibidos de comer carne de vaca apenas para que o alimento seja farto na mesa dos ricos.
No livro, Crivella diz que “no mundo hindu” o sacrifício de crianças é praticado como forma de obtenção de riqueza, prática que seria induzida por “gurus”. “Os rituais variam, mas a ênfase é sempre no derramamento de sangue seguido da ingestão do sangue quente de uma criança inocente”, conta. Segundo ele, “Cortar a parte de cima de um crânio é o método requerido”.
Para ele, o diabo e seus demônios precisam de corpos para se manifestar, daí sua quase onipresença entre nós. Os tais espíritos, assegura Crivella, são poderosos. Ele chega a recomendar cuidado com pessoas “possuídas por espíritos”, já que a transmissão do efeito diabólico pode ocorrer até mesmo durante a prática sexual: “Uma mulher cristã solteira que se casa com um hindu, ou com um homem que invoca os ancestrais e os espíritos, pode se tornar habitação dos mesmos espíritos que o marido adora”.
A julgar pelos ensinamentos de Crivella, governos poderiam investir bem menos em saúde se adotassem, de maneira preventiva, políticas públicas baseadas na expulsão dos demônios dos corpos dos cidadãos. De acordo com ele, “os remédios e médicos tratam dos efeitos, mas a causa de todos os males, que é espiritual, somente pode ser tratada com o poder de Jesus”.
Para respaldar sua tese sobre a relação entre doenças e demônios, Crivella cita na publicação o tio Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e autor de um livro, “Orixás, caboclos e guias”, que, lançado em 1987, demoniza as religiões de matriz africana. No trecho citado na obra do sobrinho, Macedo diz que toda doença tem uma causa, “e essa causa é sempre um vírus, um bacilo, um germe ou uma bactéria”.
 Para Macedo, esses seres causadores de doenças não vêm de Deus, “pois Ele não é destruidor”. Segundo o bispo, para que um micro-organismo atue “é necessário que haja uma força dentro dele; um espírito destruidor, e não podemos identificá-lo com nenhuma outra coisa, senão como uma força demoníaca”. Crivella faz, porém, uma ressalva: “Nem todas as pessoas doentes estão possessas por um espírito imundo, mas todas as doenças estão profundamente relacionadas com os espíritos imundos”.
Demônios são responsabilizados por vícios e pela homossexualidade. O senador diz que gays não devem ser tratados com menosprezo ou discriminação, mas ressalva que “milhões são vítimas desse terrível mal, vivendo sem paz e numa condição lamentável para o ser humano.”
Os tais espíritos também podem ser transmitidos para a geração seguinte, adverte o bispo: “O pai viciado e adúltero provavelmente passará o mesmo espírito para o seu filho”, alerta. Segundo ele, isso explica o fato de “um pai de respeito” passar, de repente, a ser homossexual. “E quando ele morre, o espírito se manifesta no seu filho que prontamente negligencia sua esposa e seus filhos para prosseguir nessa conduta maligna”.
Para marcar o rompimento com o diabo, Crivella estimula a destruição de objetos de culto: “Quebre completamente todos os laços com o seu passado (...). Destrua ou leve para a igreja todos os objetivos de feitiçaria, mutis, roupas, fotos, ossos, ishobas e etc., para que os pastores destruam”.
O livro não estabelece possibilidade de diálogo entre as religiões, deixa evidente uma divisão entre “o reino de Deus e o reino do diabo” e convoca para uma batalha em nome da fé: “Não existe meio-termo. Quem está com Deus luta contra o diabo e seus demônios”, prega.
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O ÔNUS E O BÔNUS DA IGREJA UNIVERSAL NA CARREIRA POLÍTICA DE CRIVELLA

Sempre que Marcelo Crivella concorre a cargos executivos na cidade e no Estado do Rio, seus adversários lembram aos cidadãos o que o senador já escreveu ou falou. No passado recente ou um pouco mais distante. Quase sempre afirmações que menos ajudam e mais atrapalham o candidato. Em vez de reiterar as ideias antes alardeadas, Crivella sente-se obrigado a relativizá-las, interpretá-las ou mesmo pedir desculpas.
O tormento tem lhe custado caro. Crivella perdeu duas eleições para prefeito e duas para governador. Em 2014, foi batido por Luiz Fernando Pezão na disputa pelo Palácio Guanabara. E olha que Pezão, que se revelou um administrador desastroso, era apoiado por Sérgio Cabral, o político mais apupado nas Jornadas de Junho de 2013.
As declarações e escritos que constituem o calcanhar de Aquiles do postulante do PRB à Prefeitura do Rio estão quase sempre associadas, de algum modo, aos valores cultivados pela Igreja Universal do Reino de Deus. Essa denominação neopentecostal é liderada pelo bispo Edir Macedo, tio de Crivella.
Crivella batalhou muito em 2016 para diminuir a rejeição provocada por seu vínculo com a Igreja Universal, da qual é bispo (licenciado). Obteve êxito no primeiro turno, quando foi pouco atacado pelos adversários, que o previam no mata-mata derradeiro. Agora, pena com as incursões ao passado eleitoralmente incômodo.
Era previsível. Há dois anos, Pezão liquidou-o ao exumar cenas marcantes da trajetória da Universal. Marcelo Freixo (PSOL) repete o expediente em 2016, veiculando vídeos que também foram ao ar na última eleição para governador. A distância de Crivella caiu de 34 para 22 pontos, em votos válidos, de acordo com o Ibope. Na quarta-feira, com o novo Datafolha, será possível saber se a distância foi reduzida, mantendo a chance de virada do deputado.
O discurso de Crivella queixando-se de perseguição jornalística tem dificuldade para emplacar. Ele não é acusado de ter dito isso ou aquilo. As palavras são de sua lavra e de sua boca. Tem sua assinatura o livro que qualifica a homossexualidade como ''conduta maligna''. Uma de suas reações ao noticiário foi adotar um jingle pregando ''chega de preconceito''. Existe evidente ruído entre a mensagem publicitária e os conceitos que Crivella algum dia trombeteou.
Conforme o blog anotou, Freixo era o oponente preferido de Crivella para o segundo turno. O senador temia o trator das máquinas municipal, estadual e federal, se o seu antagonista fosse Pedro Paulo (PMDB). Prognosticava que o Grupo Globo lhe seria antipático em confronto com o peemedebista, Indio da Costa (PSD) ou Carlos Roberto Osório (PSDB). No raciocínio de assessores de Crivella, a _na expressão deles_ ''perseguição da Globo'' ameaçaria a vitória. Apostavam que, por Marcelo Freixo ser militante de esquerda, as organizações não fustigariam o bispo da Universal. Ontem, o candidato disse que a TV Globo é ''inimiga jurada'' de sua campanha.
Noutras palavras, para a campanha de Crivella, seus laços com a Igreja Universal, nessa situação, representam ônus. A TV Record, concorrente da Globo, é controlada pelo bispo Macedo. Por isso, a concorrência nos negócios se expressaria na refrega eleitoral.
Pode ser. Mas não resolve o problema político mais notório de Crivella. O jornal ''O Globo'' publicou que ele escreveu um livro afirmando que a Igreja Católica e outras religiões ''pregam doutrinas demoníacas''. A informação é incontestável. Pode ser checada. O senador argumenta, divulga nota de esclarecimento, porém não nega a autenticidade do livro mencionado na reportagem. Essa notícia tem relevância pública, logo jornalística. Difundir informações é a essência do serviço público denominado jornalismo. Nesse caso, manipulação jornalística aconteceria se, de posse de informação útil aos cidadãos, o jornal a omitisse. Quem falou o que falou foi Crivella.
Não é invenção a reportagem contando que ele ensinou que homossexuais podem ser fruto de aborto malsucedido. Fala, Crivella: ''Vocês já repararam como os homossexuais são devotados às suas mães? Já repararam como os homens que se relacionam com outros homens têm verdadeira idolatria pela imagem da sua mãezinha querida? ‘Mamãe, mamãe, mamãe, minha mãezinha, minha mãezinha’. Você vê como uma criança pode sofrer no útero da mãe”. O jornal ''O Estado de S. Paulo'' prestaria desserviço público se escondesse essa informação.
Crivella se empenha em assegurar que a Igreja Universal não intervém em sua carreira política. Talvez tenha razão. Mas não foi o que o candidato disse e pode ser comprovado em vídeo. Ele contou ter ingressado na política por determinação da Universal.
Os católicos se dispersam por um sem-número de partidos. Idem evangélicos da Assembleia de Deus. Já os políticos ligados à Universal se concentram no PRB, presidido por um bispo (licenciado) da igreja.
É evidente que, a despeito do ônus, a Igreja Universal do Reino de Deus também constitui bônus para o político Marcelo Crivella.
Dificilmente ele teria chegado ao Senado da República sem o apoio da instituição que ele chamou, no debate da Band no começo do mês, de ''minha igreja''.
Entre os cariocas pentecostais, Crivella alcançava 91% dos votos válidos, contra míseros 9% de Freixo, no Datafolha mais recente.
Se Crivella prevalecer no domingo, a Igreja Universal colherá o maior triunfo político de sua história.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CRIVELLA É UM PERIGO

Hermes Fernandes, DCM
Por uma santa coincidência, o segundo turno destas eleições caiu justamente no dia em que se comemora 499 anos da Reforma Protestante. E por uma santa ironia, dentre as causas defendidas pelos reformadores estava a separação entre a igreja e o estado. Mas vivemos dias tenebrosos, quando os autoproclamados herdeiros da reforma traem o seu legado, atentando contra a sagrada laicidade do estado.
Chamo de “sagrado” no sentido de ser intocável, e, portanto, digna de ser defendida com unhas e dentes.
A cidade do Rio vive sua mais acirrada disputa eleitoral dos últimos tempos. De um lado do ringue, Marcelo Freixo, deputado estadual, professor de história, que alcançou notoriedade por sua luta contra as milícias, do outro, Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal presidida pelo seu tio Edir Macedo.
Conheço o Crivella há muitos anos, e posso dar testemunho de sua idoneidade. Da penúltima vez que estivemos juntos, almoçávamos num restaurante da Barra da Tijuca, quando ele me confessou com os olhos cheios de lágrimas que havia deixado a África contra sua própria vontade em obediência à ordem de seu tio. Os anos se passaram e o então candidato ao senado parece ter pego o gosto pela política. Se não, por que razão teria se candidatado tantas outras vezes?
O que me assusta em sua candidatura é o que ela representa. Ainda que nas entrelinhas, seu discurso repete exaustivamente a ladainha vociferada nos púlpitos de suas igrejas. O projeto de poder de seu tio não é segredo para ninguém. Basta desfolhar o livro “Plano de Poder” de sua autoria lançado anos atrás para deparar-se com uma proposta que beira à teocracia.
Particularmente, sinto-me enojado com a possibilidade de um talibã gospel implantado em terras tupiniquins. O sonho de Macedo é presidir o país e torná-lo cristão na canetada, bem ao estilo de Constantino, o imperador romano que tornou o cristianismo na religião oficial do império. Crivella demonstrou ser apenas mais um pau mandado à serviço dessa funesta agenda.
Houve um tempo em que os bispos da igreja temiam que numa eventual morte de Macedo, Crivella assumisse a sua direção e a transformasse numa igreja de verdade, retomando os princípios apregoados na Reforma Protestante. Por isso mesmo, pressionaram Macedo a tirá-lo do ministério pastoral, trocando o púlpito pelo plenário. No púlpito (eles o chamam de altar), Crivella se constituía numa ameaça, mas no plenário ou num posto executivo, ele seria uma mão na roda. A partir daí, seu inegável carisma estaria a serviço de um projeto que extrapola os limites eclesiásticos.
A julgar pelos vídeos publicados na internet e pelo livro escrito em 2002, Crivella teve sua fase de intolerância. Mas acredito que seu trânsito pelos corredores do poder conseguiu adestra-lo e torna-lo mais palatável. Todavia, o cerne de sua mensagem segue sendo o mesmo. Algo semelhante à descrição da besta do Apocalipse que tinha aparência de cordeiro, mas falava como dragão. O invólucro é sedutor, capaz de atrair os incautos, mas a essência do discurso se mantém intacta, comprometida até o último fio de cabelo com o conservadorismo e o fundamentalismo.
Não precisamos de um prefeito evangélico, muito menos de um presidente comprometido com esta agenda de poder. Precisamos de um prefeito engajado com a justiça social, independentemente do credo que professe.
Jesus disse que o Seu reino não era deste mundo. Isto é, Seu reino não segue a lógica do poder. De acordo com as parábolas contadas pelo mestre galileu, quem quisesse ser o maior, deveria ser o menor e assim, servir aos seus semelhantes. Quem quiser ser o primeiro, que seja o último. Portanto, não há lugar no reino para quem impõe sua agenda aos demais.
Jesus ensinou-nos a orar rogando que Seu reino viesse a este mundo, de modo que Sua vontade fosse feita aqui na terra como é feita no céu. Repare nisso: o reino não é DESTE mundo, mas é PARA este mundo. E qual seria a tal agenda do reino? Que vontade é esta que deve cumprir-se aqui, como se cumpre lá? Ele responde na própria oração do Pai Nosso. Que o pão nosso de cada dia nos seja dado hoje.
Atente para o detalhe: A oração começa com “Pai NOSSO” e pouco depois fala de uma pão que deve ser igualmente NOSSO. Tal é a natureza do reino de Deus. O Pai só poderia ser nosso onde o pão igualmente o fosse. Quem compartilha da paternidade divina, deve dispor-se a partilhar o seu pão com os demais. A mesma prece nos ensina a perdoar os nossos devedores e não a extorquir-lhes com juros abusivos como tem sido feito.
Infelizmente, os que se dizem porta-vozes do tal reino dos céus se aliaram com os que exploram e extorquem seu próprio povo. O pão é destinado apenas a alguns. Os demais, que se contentem com as migalhas que caem das mesas dos abastados.
Em contrapartida, do outro lado da trincheira, encontramos que não ouse falar em nome de Deus, mas que, ainda que inconsciente, busca fazer Sua vontade. Num de Seus últimos sermões, Jesus diz que no Dia do Juízo Final, Ele daria boas-vindas aos que lhe teriam dado de comer quando faminto, saciado Sua sede, cobrindo-o no frio, visitando-o no cadeia, e ele lhe responderiam: Não nos lembramos de termos feito nada disso para Ti.
E Ele dirá: Vocês me fizeram quando socorreram a um dos meus pequeninos. Subentende-se daí, que os que se solidarizaram com a dor alheia não o fizeram por motivos religiosos. Eles nem sequer tinham consciência de estarem servindo a Deus. Não tinham a menor intenção de usar suas boas obras para barganhar com Deus. Sua única motivação era o amor que se expressa no serviço prestado ao seu semelhante.
Recuso-me a dar meu voto a quem defenda os interesses dos que só fazem concentrar riquezas, negando-se a partilhar seu pão. Recuso-me a dar meu voto a quem não tenha qualquer escrúpulos de usar o nome de Deus para se enriquecer ou para galgar posições políticas.
Recuso-me a votar em quem não tenha demonstrado ter personalidade, dobrando-se aos caprichos dos que lhes impõe a própria vontade.
Não quero um país evangélico. Quero um país de todos. Onde cada pessoa siga sua consciência, sem interferência de quem quer que seja. Um país que respeite a diversidade, que valorize o diálogo, que abrace o forasteiro e garanta os direitos de seus cidadãos.
Sobre o Autor - Hermes Carvalho Fernandes é pastor, escritor, conferencista e teólogo com doutorado em Ciências da Religião e editor do blog HermesFernandes.com
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O CAIXA DOIS DE CRIVELLA

O candidato à prefeitura do Rio de Janeiro Marcelo Crivella (PRB) aparece como beneficiário de caixa dois na delação premiada de Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras.
Segundo o colunista do jornal O Globo Lauro Jardim, foram impressas 100 mil placas para a campanha de Crivella ao Senado em 2010, que representam cerca de R$ 12 milhões – valor que teria sido descontado de propinas da estatal.
A delação premiada de Duque ainda está sendo negociada com o Ministério Público Federal e seu conteúdo deverá vir a público em breve.
Duque afirmou aos procuradores da Lava Jato que, em 2010, Crivella procurou Graça Foster, então diretora de Óleo e Gás da Petrobras, para pedir contribuições para sua campanha. Graça encaminhou a demanda de Crivella a Duque.
Para atender ao pedido do candidato, o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto também se envolveu e acionou Carlos Cortegoso, o Carlão, dono das gráficas Focal e CRLS, que são investigadas na ação do Tribunal Superior Eleitoral que pode cassar a chapa Dilma e Temer.
À coluna de Lauro Jardim, a campanha de Crivella afirmou que não recebeu caixa dois da Petrobras e negou qualquer envolvimento do candidato com Duque e Cortegoso.
Da Época
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CONDINOME AMIGO

Da Veja
No documento em que indicia o ex-ministro Antonio Palocci por corrupção passiva na Operação Lava Jato, a Polícia Federal informa que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva era identificado nas planilhas da empreiteira Odebrecht como “amigo”, “amigo de meu pai” e “amigo de EO”. O ex-presidente teria recebido 8 milhões de reais de uma “conta-corrente de propina”, como classifica a PF, mantida com a empreiteira. O valor teria sido pago entre o fim de 2012 e ao longo de 2013.
Segundo o relatório de indiciamento da PF, há “respaldo probatório e coerência investigativa” na identificação de Lula como “amigo” nas planilhas. As provas já estão sob análise do delegado federal Márcio Adriano Anselmo, responsável pelas investigações de crimes supostamente cometidos por Lula.
“A análise aprofundada da planilha ‘POSICAO – ITALIANO 22 out 2013 em 25 nov.xls’, no entanto, revelou que os pagamentos no total de R$ 8.000.000,00 foram debitados do ‘saldo’ da ‘conta-corrente da propina’ que correspondia ao agente identificado pelo codinome de AMIGO”, diz a Polícia Federal no indiciamento. O pai do ex-presidente Marcelo Odebrecht, Emílio Odebrecht, era o principal interlocutor de Lula na empreiteira que leva o nome da família.
Emílio também prestou depoimentos na delação premiada da Odebrecht e, segundo publicou o jornal Folha de S. Paulo, informou aos procuradores da força-tarefa da Operação Lava Jato que a construção do estádio do Corinthians, em Itaquera, em São Paulo, foi um “presente” a Lula, que atribuía os maus resultados da equipe à falta de um estádio próprio, de acordo com o jornal.
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UMA CHAPA MILIONÁRIA

Da ÉPOCA
Faltavam 16 dias para o segundo turno das eleições de 2014 quando Eduardo Cunha enviou uma mensagem, em tom de ordem, ao presidente da OAS, Léo Pinheiro. “Vê Henrique seg turno”, escreveu o então líder do PMDB, em 10 de outubro, pedindo ajuda financeira para a reta final da campanha do aliado Henrique Eduardo Alves ao governo do Rio Grande do Norte. Como o dinheiro demorava a cair, Cunha ficou impaciente. “Amigo, a eleição é semana que vem, preciso que veja urgente”, escreveu, três dias depois. “Tem de encontrar uma solução, senão todo esforço será em vão”, insistiu, dali a dois dias. Pinheiro respondia sempre que estava com dificuldades para levantar novos recursos. Cunha, habilidoso negociador, decidiu resolver o problema por conta própria. Providenciou com dirigentes da Odebrecht uma transferência eletrônica de R$ 4 milhões da empreiteira para o comitê nacional do partido em 23 de outubro. Naquele dia, um cheque do mesmo valor saiu da cúpula da sigla para o diretório do PMDB-RN e, ao longo da semana, todos os R$ 4 milhões chegaram à conta da campanha de Alves.
O episódio diz muito sobre Cunha e o PMDB. Ao contrário do PT, o PMDB não teve, nas eleições mais recentes, um tesoureiro responsável por centralizar a arrecadação e a distribuição de dinheiro de campanha – é por isso que, no petrolão, não se descobriu no partido de Cunha figuras como João Vaccari e Delúbio Soares. A maior legenda do Brasil constitui-se numa aglomeração de chefes políticos que, a depender do momento e da oportunidade, organizam-se regionalmente ou no Congresso. Divide-se, em Brasília, em dois grupos principais: o PMDB da Câmara e o PMDB do Senado. A arrecadação de doações eleitorais obedecia a essa estrutura política. O caixa eleitoral do partido, no entanto, era único. Empresários doavam a uma conta nacional, mesmo que quisessem repassar o dinheiro a um candidato específico. A confusão era certa. Não era fácil identificar qual doação pertencia a qual candidato – às vezes, mais de um candidato.
Cunha, graças a seu excelente relacionamento com os maiores empresários do país, conforme o episódio com Léo Pinheiro deixa claro, encarregava-se, sobretudo na campanha de 2014, de resolver as encrencas. Conhecia todo mundo que doava e conhecia no PMDB todo mundo que receberia, ou deveria receber, o dinheiro. Tornara-se, de certa maneira, um tesoureiro informal do PMDB. Agora, esse tesoureiro está preso pela Lava Jato – e seus segredos não estão somente na Suíça.
Cunha, portanto, conhece como ninguém os bastidores da arrecadação do PMDB em 2014. Meticuloso, guardou documentos e anotou todos os detalhes, incluindo valores e destinatários, das doações – legais e ilegais – daquela campanha. Nelas, há até datas e locais de encontros com empresários, lobistas e políticos do PMDB. Na pauta, sempre dinheiro de campanha. “Ou dinheiro pago durante a campanha”, disse ele recentemente a amigos, com leve ironia. Ele se referia ao fato muito conhecido, nos bastidores do poder, de que eleições são oportunidades para políticos ganharem dinheiro. Afinal, uma vez na posse das contribuições, legais ou ilegais, dos empresários, um político pode usá-las para produzir santinhos – ou produzir saldo em contas na Suíça.
Nos últimos meses, conforme a perspectiva de que fosse preso tornava-se cada vez mais próxima, Cunha, percebendo-se sem saída, reuniu os documentos e organizou as anotações. Passava os dias – e as madrugadas – consultando os arquivos, em papel e no computador, e a memória. Criou pastas para cada alvo. Preparava-se para tentar, no momento certo, uma delação premiada. (Seus advogados chegaram a sondar a Procuradoria-Geral da República, mas as conversas não avançaram.) Parte do material serviria para o livro que Cunha estava escrevendo sobre os bastidores do impeachment de Dilma Rousseff. Nele, Cunha descreveria os fatos políticos da queda da petista, sem mencionar ilegalidades. Estas ficariam para a delação.
Com a prisão, tudo mudou. Cunha sabe que dificilmente sairá da cadeia, mesmo que seja em alguns anos, sem fechar uma delação. Sabe também que sua família corre risco considerável de ter o mesmo destino dele. E, para fechar uma delação, ele sabe ainda que os procuradores exigirão, além de uma inequívoca admissão de culpa, uma quantidade formidável de novos casos de corrupção – e provas sobre casos em andamento. A extensa lista dos fatos que Cunha se dispõe a esclarecer, caso as autoridades topem, começa precisamente por seu papel como tesoureiro informal na campanha de 2014.
Ele tem informações que podem ser determinantes para o desenrolar da investigação que o Tribunal Superior Eleitoral conduz sobre as contas da chapa que elegeu Dilma como presidente e Michel Temer como vice. Já há provas abundantes, segundo a Lava Jato, de que dinheiro do petrolão abasteceu, seja no caixa oficial, seja no caixa dois, a chapa de Dilma e Temer. Se os ministros do TSE avançarem no processo, Temer pode, no limite, ser cassado – e perder a Presidência, forçando uma eleição indireta, via Congresso, ao Planalto. Hoje, Temer e seus advogados fazem de tudo para tentar separar as contas do PT e do PMDB. Ainda não obtiveram sucesso.
É nesse ponto que o testemunho de Cunha pode se revelar comprometedor. Segundo ele disse a amigos reiteradas vezes nos últimos meses, os compromissos financeiros dos grandes empresários misturaram-se entre PT e PMDB. De acordo com esses relatos e outras duas fontes envolvidas nas negociações, o PMDB cobrou R$ 40 milhões do PT para apoiar a chapa de Dilma. Segundo as fontes, o acordo secreto foi fechado no primeiro semestre de 2014 por Aloizio Mercadante, homem de confiança de Dilma, e pelo senador Valdir Raupp, que presidia o PMDB.
Pelo acordo, o PT usaria seu crédito junto aos grandes empresários – sobretudo empreiteiros do petrolão – para garantir que o PMDB recebesse os R$ 40 milhões. Em troca, o PMDB apoiaria, e não somente por esse motivo, a chapa de Dilma e Temer. Trata-se de uma prática comum na política de alianças brasileira. Não é, por definição, ilegal. Para os chefes dos partidos e candidatos, é uma negociação necessária dentro da regra do jogo do presidencialismo de coalizão. Alguns políticos, porém, enxergam na prática uma mera compra de apoio político, uma relação corrupta de troca. Viu-se um exemplo disso no mensalão. O PT, como ficou comprovado, ajudou a financiar, com dinheiro público desviado, a campanha de partidos aliados. No caso do acordo dos R$ 40 milhões, não há indícios de ilegalidade até o momento.
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domingo, 23 de outubro de 2016

O TEU PASSADO TE CONDENA

A revista "Veja" preparou uma surpresa e tanto para seus leitores, pois, já na capa, estampa a foto de Marcelo Crivella preso e a frase: "A foto que Crivella esconde há 26 anos". Só que, essa semana, serão duas capas, sendo que a outra será exclusiva sobre a prisão do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha.
A capa da "Veja" com Eduardo Cunha (PMDB) será a edição nacional, podendo ser encontrada por todo o território nacional e a com Marcelo Crivella (PRB) preso será uma edição somente para o Rio de Janeiro. A "Veja" segurou a matéria até a última hora e tomou todo o cuidado para que não houvesse vazamento, tentando garantir uma boa vendagem e, de fato, está todo mundo curioso para saber que história é essa, afinal ninguém tinha comentado antes sobre a prisão de Crivella e, nas redes sociais, já se tornou um dos principais assuntos.
A única informação que a "Veja" disponibilizou, para dar uma ideia do que tem no conteúdo da #Polêmica revista, é que a reportagem exclusiva de 5 páginas traz todos os detalhes a respeito da prisão do candidato e explica também o motivo pelo qual o inquérito, de 117 páginas, ficou desaparecido por quase 30 anos.
A "Veja" não estaria sendo a primeira a atacar o político, pois muitos outros meios de comunicação têm feito matérias mostrando porque os eleitores não devem votar em Crivella. Vídeos do candidato estão sendo divulgados nas redes sociais e postados no Youtube, mostrando Marcelo Crivella, quando bispo da Igreja Universal, detonando os homossexuais, criticando a igreja Católica e até mesmo as mulheres.
Nas fotos, Crivella aparece de frente e também de perfil e elas foram feitas na delegacia do Rio de Janeiro e registram uma parte do passado do político que ele pode até querer esquecer, mas que a "Veja" fez questão de trazer e mostrar a todos. Nas últimas pesquisas para a prefeitura do Rio, ele é o favorito, mas, quanto mais se aproxima o dia das eleições, mais crescem os ataques.
A reportagem sobre Cunha praticamente será deixada de lado, diante da história bombástica sobre a prisão de Marcelo Crivella.
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CASAS DE NEGÓCIOS

Débora Bergamasco, ISTOÉ
Primeira mulher no Superior Tribunal de Justiça e famosa por acusar a existência de “bandidos de toga” quando ocupou por dois anos o cargo de corregedora nacional do Conselho Nacional de Justiça, a ex-ministra Eliana Calmon, 71 está aposentada do serviço público há cerca de mil dias, mas segue disparando críticas ao sistema político e ao Judiciário. Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, a advogada diz que o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, é “o pai do desmonte do CNJ” e o acusa de apoiar o “inoportuno” reajuste salarial de magistrados para “ficar bem com o Poder Judiciário”. E declara que a medida só teve sucesso no Congresso Nacional porque ninguém quis brigar com o setor: “Está todo mundo com o rabo na cerca com essa Operação Lava Jato”. Candidata ao Senado em 2014, ela diz que a experiência foi rica para “conhecer a política por dentro” e afirma que ninguém quer melhorar a situação partidária.
O que a senhora acha do aumento salarial para o Judiciário?
Sou absolutamente contra. É inoportuno. O magistrado está ganhando muito bem. Vamos fazer o seguinte? Uma tabela comparativa mostrando quanto ganha um médico do Exército, por exemplo, com dedicação exclusiva. Ou um dentista, um advogado… Mas, não, eles só querem se comparar com o que ganha um milionário, aí não é possível.
Por que esse aumento obteve sucesso no Congresso Nacional?
Houve um lobby muito grande. Mas também porque ninguém quer brigar com o Poder Judiciário.
Por quê?
Por quê? Não precisa nem eu dizer. Um juiz que trabalhava comigo dizia “ministra, está todo mundo com o rabo na cerca”. É uma expressão de matuto. O animal preso pelo rabo fica desesperado, faz qualquer coisa para sair. Então, está todo mundo com o rabo na cerca com essa operação Lava Jato. Então, é melhor não brigar com ninguém que tenha saia. Não se briga com mulher, com amante, nem com juiz, nem com padre. Usou saia, meu amigo, faça as pazes.
O ministro Ricardo Lewandowski lutou muito por esse aumento…
Pois é. Ele prometeu isso. Brigou muito para se contrapor a Joaquim Barbosa (ex-ministro do STF), que era absolutamente contra, então ele se colocou a favor. Quando os juízes foram pedir aumento a Joaquim, e eu estava presente, ele passou uma descompostura. E o Lewandowski se colocou inteiramente contrário àquela posição e aí teve de manter isso até o fim.
Há “bandidos de toga”, como a senhora declarou quando era corregedora do Conselho Nacional de Justiça?
Opa, muitos. Depois que eu saí da Justiça vi que há mais do que eu pensava. Porque eu estou do outro lado do balcão e as pessoas contam para mim as coisas que se passam. Quem conta são os advogados, que são os maiores conhecedores, os empresários e muitos dos que são achacados.
O que a senhora acha do trabalho do CNJ atualmente?
É como se ele tivesse encolhido. Foi feito um processo de desmonte do CNJ desde que saí. A partir da administração do ministro Gilson Dipp e em seguida, a minha, fizemos um trabalho de enfrentamento e isso deu muita projeção ao CNJ. E a partir daí o corporativismo tentou imoedir que o órgão tivesse interferência nas correições, nas atividades administrativas dos Tribunais — e isso contou com o entendimento que tinha o ministro Lewandowski. Ideologicamente, ele nunca aceitou bem essa interferência do CNJ no Poder Judiciário.
Quem é o pai desse desmonte?
Eu acho que foi o Lewandowski. O CNJ está para se transformar em uma figura completamente figurativa se for aprovado um projeto que cria os conselhos dos Tribunais de Justiça. Eles fariam uma filtragem de todas as denúncias que deveriam ir para o CNJ.
Qual seu balanço da Lava Jato?
Foi um divisor de águas, que começa com o mensalão e chega com mais profundidade na Lava Jato. Até porque encontrou uma legislação mais evoluída, como a lei da improbidade empresarial que traz diversos instrumentos como o acordo de leniência, a delação premiada, os acordos de compliance.
Há críticas de que estaria havendo abuso para obter delações, prendendo o investigado para forçá-lo a delatar.
Quando eu estava na Justiça, eu não tinha delação premiada. Mas confesso que quando participava das minhas grandes operações policiais eu fazia a mesma coisa. Eu entendia que nos crimes de colarinho branco, de organizações criminosas, você consegue ter um avanço nas investigações quando o sujeito deprime e fica com medo de ser condenado. Os mais duros não abriam o bico. Os mais acessíveis terminavam falando o que se passava naquela organização criminosa. Vejo a Lava Jato com bons olhos. Não se trata de ser justiceiro, mas usar o meio adequado previsto na lei.
O ex-presidente Lula diz estar sendo perseguido pelo juiz Sergio Moro. A senhora concorda?
O ex-presidente Lula e o PT ficaram com essa ideia de perseguição, essa cantilena, mas com o passar do tempo foi arrefecendo. Porque estão pipocando denúncias de tudo quanto é parte, de juízes, de São Paulo, de Curitiba, de Brasília. Isso não é uma perseguição nem de Sergio Moro nem de ninguém.
Moro é apontado pelo PT como arbitrário e autoritário…
Mas isso era de se esperar, porque todas as vezes que uma autoridade está tendo sucesso na punibilidade começa a ser desqualificada, porque essa desqualificação quer tirar o foco do réu e colocar no juiz. Bastante previsível.
O ex-senador Delcídio do Amaral disse em delação premiada que o governo Dilma Rousseff nomeou Marcelo Navarro ao STJ para atender interesses de presos da Lava Jato. A senhora acha que isso pode ter acontecido?
Eu não acho que seja mentira dele, não. Porque, quando se está pleiteando um cargo de ministro, se pede a todo mundo. E as pessoas menos fortes fazem, inclusive, algumas promessas. Agora, entre fazer a promessa e cumpri-la, está uma grande diferença. Eu acredito que seja verossímel, que houve ingenuidade por parte do governo e acho que houve leviandade por parte dos atores do Poder Judiciário.
Como assim, “se pede a todo mundo”?
Todo mundo (que pleiteia o cargo) promete, todo mundo tem padrinho político e esses padrinhos cobram e cobram. Ou seja, nesse mundo de poder, cada um tem um dono. Por isso eu sempre achei execrável essa forma de escolher ministro, porque fica com o pires na mão pedindo a todo mundo. E os advogados sabem exatamente, quando querem alguma coisa, a quem pedir. Pedem aos padrinhos políticos, para que peçam (aos magistrados) por eles. Quem quebra esse ritual termina ficando na vitrine. Começam a dever favor a partir da entrada na lista. Aí os colegas dizem assim: “Eu votei no seu nome, portanto você tem que contratar fulano para o seu gabinete, tem que empregar tantos assessores.” É assim que funciona no poder.
A senhora também teve padrinho político.
Sim. Quando cheguei ao Senado para a sabatina e me perguntaram o que eu achava desse sistema de escolha, eu disse: “Acho terrível, porque as pessoas ficam nas mãos dos padrinhos políticos”. Aí me perguntaram se eu havia tido padrinho. Respondi: “Lógico, se não eu não estaria aqui. São fulano, ciclano e beltrano”. Assim que disse quem eram, eles já não podiam me pedir nada.
Como foi sua experiência como candidata do PSB ao Senado em 2014 pela Bahia?
Extremamente rica para conhecer a política por dentro. Conheci a verdade dos partidos para saber que são casas de negócio onde não há proteção para os próprios candidatos bem desempenharem suas candidaturas. O partido trabalha para os interesses econômicos do partido. E ninguém está querendo melhorar a situação partidária, ao contrário. Querem igualar os partidos para que todos sejam casas de negócio, cada um com sua casa mais bem estruturada para vender o nome do partido, o fundo partidário, o tempo de televisão. Vender “vendido” mesmo: eu troco apoio na minha base e você me dá cargos; ou você fica como candidato do partido a prefeito na cidade tal e me paga R$ 100 mil. Eu vi isso por dentro.
A senhora pode dizer onde isso aconteceu?
Não, eu chegava em algumas capitais e perguntava como estava o partido tal e aí me contavam. Tinha um cara decentíssimo que era presidente do diretório, mas tiraram e botaram um sujeito safado por R$ 70 mil.
Qual sua opinião sobre o pedido de impeachment de Gilmar Mendes?
Ele é um pouco descuidado, emocional. Quando se zanga, fala de uma forma muito desabrida e isso pode dar uma conotação política. Mas não conheço nenhum ato dele que possa ser considerado de improbidade. Acho uma demasia, fruto de pessoas que querem neutralizá-lo.
Um ministro do Supremo pode dar opiniões políticas?
Não é comum, não deveria, mas ele faz. Até aqui, o que ele fez, não pode ser considerado criminoso. Ele fala, mas e aqueles com atos muito mais profundos de identidade ideológica e que não falam e a gente só vê as consequências do seu agir? Esses é que são perigosos.
A senhora nominaria algum?
Não. Assim também já é demais. Eu piso no tomate, mas não nessa velocidade (risos).
Nossos presídios estão à beira do colapso. O que pode ser feito, dentro do atual contexto orçamentário?
Quando os recursos são escassos, é preciso definir prioridades — e a questão carcerária é um tema que não pode ser relegado a segundo plano. O Ministério da Justiça precisa aperfeiçoar a gestão de projetos que já vêm sendo implementados pela área técnica e trabalhar de forma integrada com o judiciário, o Ministério Público e a Defensoria Pública. Importante ainda não insistir em ideias mágicas, fáceis e equivocadas, como foi a da privatização dos presídios, que não deu certo nem nos Estados Unidos.
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DOIS POLÍTICOS, DUAS PRISÕES

Da Veja

Duas fotos, de frente e de perfil, tiradas em uma delegacia do Rio, fazem parte da história de vida de Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, senador licenciado da República pelo PRB e líder nas pesquisas para a prefeitura do Rio.
Reportagem de cinco páginas em VEJA desta semana explica como se deu essa prisão até agora desconhecida – e também por que ficou desaparecido por 26 anos o inquérito de 117 páginas que contém as imagens.
A reportagem está na edição distribuída em todo o Brasil a partir deste sábado. No Estado de Rio de Janeiro, é a capa. No restante do país, o recheio da revista é o mesmo, mas na capa está Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara preso em Brasília na última semana. Ao perceber que seria levado pela Polícia Federal a Curitiba, ele acionou o Planalto: “Vocês precisam fazer alguma coisa.”
A revista traz ainda detalhes da delação que complica o presidente do Senado, Renan Calheiros, ao relatar como ele recebia as propinas do petrolão, entre outros destaques.
Para ler a reportagem na íntegra, compre a edição desta semana de VEJA que já está nas bancas.
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ITAQUERÃO, UM PRESENTE PARA LULA

A Lava Jato vai chegar ao Corinthians. Emílio Odebrecht, presidente do conselho de administração do grupo que leva o seu sobrenome, afirmou em acordo de delação, em fase de negociação, que o estádio construído pela empreiteira foi uma espécie de presente ao ex-presidente Lula, torcedor do time.
O agrado, na versão de Emílio, foi uma retribuição à suposta ajuda de Lula ao grupo nos oito anos em que o petista comandou o país, de 2003 a 2010.
Sob governos do PT, de 2003 a 2015, o faturamento do grupo Odebrecht multiplicou-se por sete, de R$ 17,3 bilhões para R$ 132 bilhões, em valores nominais (a inflação do período foi de 102%).
Emílio é pai de Marcelo Odebrecht, preso desde junho de 2015 e condenado a 19 anos de prisão. Por pressão do patriarca, ele e cerca de 80 executivos do grupo decidiram buscar um acordo de delação premiada.
Os relatos, que indicam suborno, ainda terão de ser homologados pela Justiça.
Emílio passou a integrar o acordo porque era o principal interlocutor de Lula.
Foi o mais ardoroso defensor da delação, vista por ele como a única saída para salvar o grupo da falência.
Após a prisão de Marcelo, a Odebrecht passou a ter problemas de crédito com bancos e acumula dívidas de R$ 110 bilhões.
Conhecida como Itaquerão, a arena do Corinthians, na zona leste de São Paulo, foi construída pela empreiteira de 2011 a 2014, quando foi palco da abertura da Copa do Mundo. Custou R$ 1,2 bilhão, quase 50% acima da estimativa inicial do projeto, de R$ 820 milhões.
A obra foi financiada por recursos do BNDES (R$ 400 milhões), títulos autorizados pela Prefeitura de São Paulo (de até R$ 420 milhões) e empréstimos em bancos privados. Na época, o prefeito era Gilberto Kassab (PSD).
A ideia de construir o Itaquerão partiu do então presidente Lula, que atribuía os maus resultados do Corinthians à falta de um estádio, segundo relatos colhidos pela Folha.
Em 2010, o último ano de Lula à frente da Presidência, o clube ficou em quinto lugar no Campeonato Paulista, terceiro no Brasileiro e nono na Libertadores. Em 2007, havia sido rebaixado.
O presidente do clube à época, o atual deputado Andrés Sanchez (PT-SP), já havia dito em 2011 à revista "Época" que Emílio participara do projeto financeiro da arena: "Quem fez o estádio fomos eu e o Lula. Garanto que vai custar mais de R$ 1 bilhão. Ponto. A parte financeira ninguém mexeu. Só eu, o Lula e o Emílio Odebrecht".
O resultado da equação financeira montada foi desastroso. Dos R$ 420 milhões de títulos com emissão autorizada pela prefeitura, que poderiam ser usados para quitar dívidas municipais, foram vendidos R$ 25 milhões.
O Corinthians não tem pago as parcelas mensais de R$ 5,7 milhões ao BNDES, com o consentimento da Caixa, que intermediou o empréstimo, porque negocia uma carência maior.
A arena deveria ter arrecadado R$ 112 milhões no ano passado, mas conseguiu R$ 90 milhões. Se o desempenho se repetir nos próximos anos, o Corinthians pode perder o estádio para a Odebrecht, segundo contrato do clube e um fundo que cuida do empreendimento.
REUNIÕES
Além do caso do estádio, Emílio relata na proposta de acordo de delação que tinha reuniões com Lula, muitas vezes com frequência mensal.
Nesses encontros, Emílio pediu e obteve o aval de Lula para ajudar a empreiteira a se expandir por América Latina e África.
O petista é réu numa ação que tramita em Brasília, sob acusação de ter ajudado a Odebrecht a conquistar contratos em Angola.
Lula preferia tratar dessas questões com Emílio, segundo executivos ouvidos pela Folha sob condição de anonimato, porque não gosta do estilo seco de Marcelo. Tinha afinidade com o modo descontraído do baiano Emílio.
Nos encontros entre Lula e Emílio, não eram mencionados pagamentos de suborno, ainda na narrativa dele.
As questões práticas de como o PT seria beneficiado pela ajuda à Odebrecht seriam tratadas entre Marcelo e o ex-ministro Antonio Palocci.
O ex-ministro aparece com o codinome de "Italiano" em documentos apreendidos pela Polícia Federal no que seria o "departamento de propina" da Odebrecht, mantido em Salvador, segundo os procuradores da Operação Lava Jato e a ex-secretária da empresa Maria Lúcia Tavares, que fez um acordo de delação.
OUTRO LADO
O advogado Cristiano Zanin Martins, que cuida da defesa do ex-presidente Lula, desqualificou o conteúdo das delações negociadas na Operação Lava Jato, como a de Emílio Odebrecht, executivo do grupo que leva seu nome.
"A Lava Jato não conseguiu apresentar qualquer prova sobre suas acusações contra Lula. Na ausência de provas, trabalha-se com especulações de delações. Se a delação já não serve para provar qualquer fato, a especulação de delação é um nada e não merece qualquer comentário", disse o advogado em nota enviada à Folha.
A Odebrecht, o Corinthians e o deputado Andrés Sanchez não quiseram comentar o relato de que o estádio do time seria um presente para Lula pela suposta ajuda ao grupo.
O advogado José Roberto Batochio, que defende o ex-ministro Antonio Palocci, diz que a afirmação de que o seu cliente tratava de suborno com Marcelo Odebrecht não tem fundamento.
"Causa surpresa essa versão de que o Palocci tinha mais contato com o Marcelo do que com o Emílio Odebrecht. Porque há uma amizade muito antiga entre Palocci e Emílio. Ele consultava muito o Palocci sobre a economia nacional e global. Já a relação entre Palocci e Marcelo era quase zero."
O defensor rebate a interpretação dos procuradores da Lava Jato e da Polícia Federal de que o ex-ministro seja o "Italiano" citado em planilhas da Odebrecht. Segundo ele, as próprias mensagens trocadas por executivos mostram que Palocci jamais poderia ser o beneficiário dos supostos subornos.
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TEMOS JUSTIÇA ?

Marco Antonio Villa, ISTOÉ
O jurista João Mangabeira escreveu que “o Judiciário foi o poder que mais falhou na República.” Mais de meio século depois, o quadro é o mesmo – ou até pior. Não há quem não reclame da lentidão no funcionamento da Justiça. Contudo, os recursos orçamentários são altos. Se os juízes de primeira instância trabalham em excesso, sem a estrutura adequada, o mesmo não ocorre nos tribunais de justiça, na esfera estadual, e, especialmente, nas cortes superiores de Brasília. O caso do Supremo Tribunal Federal é exemplar. Tem mais de três mil funcionários. Só de recepcionistas são mais de duzentas. Sim, duzentas! É, com certeza, o local em todo o mundo que uma pessoa é melhor recepcionada.
Tanto no STF como no Superior Tribunal de Justiça é possível encontrar remunerações superiores a dez vezes o teto constitucional. O argumento é que são vantagens eventuais, algo não permanente. Mas como explicar em diversas folhas de pagamento do STJ, em 2015, remunerações de ministros no valor de R$ 500 mil?
É inaceitável um juiz, desembargador ou ministro envolvido em ação inescrupulosa, como a venda de sentença, e que ainda receba, como punição, a aposentadoria compulsória. Aposentadoria de R$ 30 mil é punição? Não seria o caso de condenação em regime fechado e, claro, sem pagamento de aposentadoria? O triste é que é um fato recorrente. Basta citar que, recentemente, no Tribunal de Justiça de São Paulo, um desembargador foi aposentado por vender sentença para o crime organizado. E mais: no STJ, um ministro foi aposentado acusado dos crimes de prevaricação e corrupção passiva. O absurdo é que a punição criminal ainda não ocorreu mas a aposentadoria está sendo paga, religiosamente, todo santo mês.
Há juízes, especialmente em Brasília, que mantém sob seu domínio um processo durante anos. E com isso favorece uma das partes. Outros estabelecem uma relação excessivamente próxima com advogados. Aceitam presentes, favores de toda ordem. E o inverso é verdadeiro: há advogados que fazem questão de proclamar a amizade com ministros, como uma espécie de cartão de visita de seu escritório. Pior quando parentes de ministros advogam na própria Corte. São esposas, maridos, filhos, genros, cunhados – como se a ética fosse algo absolutamente irrelevante. Isso é justiça? 
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ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Artigo de Fernando Gabeira
Pensei em escrever sobre a prisão de Eduardo Cunha. Mas já falei dela e a considerava uma consequência da perda de seu mandato. Era tão amadurecido na minha cabeça que ao ser informado de que Cunha foi preso, corri o risco de perguntar: de novo?
O Rio é uma cidade surpreendente. Na Olimpíada, lançou a mensagem universal de diversidade e tolerância. Nas urnas levou dois candidatos ao segundo turno cujas campanhas são sacudidas pelos fantasmas do obscurantismo político e religioso. Esses fantasmas reaparecem na forma de um livro de Crivella e uma declaração de uma corrente do PSOL afirmando que Shimon Peres é um genocida que ganhou o Prêmio Nobel da Paz.
Ambos, Crivella e PSOL, navegam num contexto em que esses fantasmas já surgiram. Um pastor evangélico no passado chutou a imagem de uma santa católica. Um dirigente do PSOL, também no passado, queimou uma bandeira de Israel em praça pública. Outro dia, estava lendo uma história da expressão tolerância, de Wendy Brown, e ele aponta que a gênese histórica da tolerância não dependeu apenas do liberalismo, mas também do fim de sangrentas guerras pela separação entre Igreja e Estado, cavando com isso um espaço maior para o indivíduo.
Embora escrito há duas décadas, o texto de Crivella contém uma semente de intolerância religiosa, um maniqueísmo básico. Sua maior expressão, no texto divulgado pela imprensa, é a ideia de Crivella: “bacilos, germes e bactérias não foram criados por deus mas são a tradução microscópica do diabo”. A partir daí, é compreensível que segregue religiões orientadas por deus ou pelo diabo, práticas sexuais legítimas ou pecaminosas. Nesse último ponto, a vida sexual, as religiões são parecidas. Mas, de certa forma, tentam, ainda que timidamente, distinguir os mandamentos que valem para os fiéis e os que valem para os sacerdotes. O modo de fazer amor dos missionários é classicamente conhecido. Tão conhecido que o tradicional papai-mamãe é inscrito, nas incontáveis modalidades de sexo, como a posição do missionário.
O próprio budismo, entre dez preceitos, obriga os monges a seguir todos, mas aceita que os leigos observem apenas os cinco primeiros. Mesmo no budismo, a questão do sexo parece ter grande importância, pois o segundo preceito — não cometer atos impudicos — também apresenta restrições. Enfim, a visão restritiva do sexo não é exclusiva de uma religião. O problema é entender nisso uma luta entre deus e o diabo, mover cruzadas para universalizar a posição do missionário. Isso ajuda a demonizar comportamentos sexuais e, certamente, ajuda a demonizar visões e cultos religiosos diversos do evangélico, como a religião católica ou a africana.
No outro lado do ringue, o ataque a Shimon Peres no site do PSOL vai num sentido contrário à posição brasileira de apoio aos esforços de paz no Oriente Médio. Assim como a suspeita de obscurantismo religioso é razoável no contexto de Crivella, a de obscurantismo político também é razoável no da extrema esquerda. Queimar a bandeira de Israel é posicionar-se, simbolicamente, pela destruição do estado judeu. A posição tradicional brasileira é lutar pela paz e coexistência amistosa de judeus e palestinos. O germe da intolerância aparece também nas posições do PSOL sobre a resistência venezuelana ao populismo devastador dos chavistas, à luta dos cubanos pela liberdade. Enfim, toda a festa de abertura da Olimpíada parece ter acontecido num Rio distante, numa cidade imaginária. No entanto, o Rio da tolerância política e religiosa existe de fato, e não só terá dificuldades para escolher, como também para monitorar o vitorioso, mantê-lo distante dos fantasmas que habitam suas moradas políticas e religiosas.
Nada de pessoal. São forças com que convivi no espaço público. Crivella é uma pessoa gentil. Poderia conversar com ele sobre a partícula de deus, bóson de Higgs, uma partícula subatômica que ganhou esse nome porque está em toda parte. Mesmo entre os germes, bacilose e bactérias do diabo. E com Babá, com quem convivi na Câmara, poderia conversar sobre o carimbó paraense e toda a riqueza e diversidade da música de seu estado natal. O problema não são as pessoas, mas sim algumas de suas ideias, no momento em que se preparam para dirigir uma complexa metrópole com apelo global.
É tarde para choradeira. Uma das duas forças sairá vencedora. Só resta estar por aqui, lembrando que o muro de Berlim já caiu e que mistura de religião com política ficou no passado, embora se manifeste hoje no Exército Islâmico e em outros grupos terroristas. Lembrar que o populismo agoniza no continente. São tantas as promessas eleitorais, tão grave a crise econômica, que acredito que a primeira tarefa será ajustar discurso e realidade.
No mais, vamos para a dura batalha do cotidiano urbano, esse espaço onde residem os deuses e os diabos das pequenas coisas.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 23/010/2016
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CRIVELLA NA RODA

No último debate do primeiro turno, na Globo, um agressivo Marcelo Crivella partiu para cima de Pedro Paulo: "Vocês (o PMDB) estão envolvidos na Lava-Jato, no petrolão, em todos os escândalos que humilharam a cidade".
Pois é justamente a Lava-Jato que poderá cair como uma bomba no colo de Crivella, quando forem tornados públicos alguns trechos da delação premiada que Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, negocia com o Ministério Público Federal.
Em sua campanha ao Senado em 2010, de acordo com o que chegou ao conhecimento do MPF, Crivella procurou Graça Foster, então diretora de Óleo e Gás da Petrobras, e pediu ajuda financeira.
Graça o encaminhou a Duque, não sem antes ligar para o colega de diretoria e pedir que ele resolvesse o problema — o que acabou acontecendo.
Neste momento, entrou em campo João Vaccari, então tesoureiro do PT. Segundo Duque, Vaccari tratou de acionar Carlos Cortegoso, o Carlão, dono das gráficas Focal e CRLS, as mesmas que são investigadas na ação do TSE que pode cassar a chapa de Dilma e Temer.
Foram impressas 100 mil placas para a campanha de Crivella. Considerando o preço médio na época do tipo de placa mais procurado por políticos, de 120 por 80 centímetros, o total de 100 mil equivale a cerca de R$ 12 milhões.
Segundo as informações com as quais o MPF trabalha, Duque afirmou que esse serviço, não declarado pela campanha de Crivella, foi descontado da propina garfada da Petrobras.
Procurada, a campanha de Crivella negou que ele tenha tido banners pagos pelo petrolão. Disse que Crivella nunca pediu ajuda de campanha a Duque e tampouco conhece Cortegoso.
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OS SEGREDOS DE CUNHA

Da ISTOÉ
Familiarizado com os segredos mais recônditos de políticos dos mais diversos matizes, o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) estremece o poder. Desde que foi preso na última quarta-feira 19, ele tornou-se o novo homem-bomba da República, capaz de acelerar os batimentos cardíacos de pelo menos sete em cada 10 parlamentares do Congresso. Não por acaso, sua prisão foi comparada a uma espécie de “toque de recolher” no Legislativo. Minutos depois de sua detenção, não havia viva alma na Câmara e Senado para contar história. Pudera. Uma delação daquele que pode ser considerado o presidente da Câmara mais poderoso desde a redemocratização tem potencial explosivo só comparável ao atribuído ao depoimento de Marcelo Odebrecht, dono da maior empreiteira do País – que mantém negociações avançadas para homologar a colaboração premiada com a força-tarefa da Lava Jato. As revelações de Cunha podem atingir não apenas o PMDB, seu partido, do qual por muitos anos foi uma espécie de caixa responsável por arrecadar recursos com empresas e repassá-los a candidatos do partido País a fora. Mas incriminar também aliados de um amplo leque de legendas. Sobretudo políticos com os quais conviveu intimamente, do atual e de governos anteriores. Ou seja, ele sabe demais e é por saber demais que ele impõe medo e dissemina o pânico em Brasília.
O peemedebista é uma espécie de caixa-preta do submundo da capital federal. Conforme apurou ISTOÉ, suas contribuições devem ir além de simples relatos. Cunha guarda consigo um extenso acervo, com áudios, vídeos e documentos, de negociatas que envolvem integrantes da cúpula de PT e PMDB e cerca de 200 deputados de sua base de apoio. O material – considerado nitroglicerina pura por quem já o manuseou – contém detalhes da distribuição de recursos do Petrolão e poderá, entre outros fatos, elucidar casos de corrupção no Porto de Santos, que atinge o coração do PMDB, e no projeto do Porto Maravilha. Parte robusta desse dossiê foi armazenada graças a tecnologias instaladas nos escritórios do ex-presidente da Câmara. Segundo ISTOÉ apurou, Cunha contava com um arsenal antiespionagem. Além de câmeras e escutas ambientais para gravar reuniões, ele dispunha de um dispositivo que, quando acionado, emitia ondas eletromagnéticas capazes de cortar sinais de celulares no ambiente e impediam que o interlocutor gravasse as conversas.
Embora sempre tenha negado publicamente a possibilidade de fechar um acordo com a Justiça, há tempos Cunha discute o assunto com seus advogados. Recentemente, adicionou o defensor Marlus Arns, responsável por uma série de acordos na Operação Lava Jato, ao seu grupo de defensores. Metódico, Cunha, nos últimos meses, passou a fazer um inventário de tudo o que ouviu e acumulou.
EFEITO ORLOFF
Por tudo o que pode vir a revelar, o novo homem-bomba da República produz um cenário considerado inimaginável para as circunstâncias políticas recentes. É capaz de unir por conveniência próceres de PT e PMDB – solidários na dor profunda que Cunha poderá impingir a ambas as siglas. Caso se mantenha firme no propósito de implodir o status quo político para livrar mulher e filhos da cadeia, o peemedebista poderá narrar com detalhes o quanto Lula e Dilma Rousseff sabiam e se beneficiaram dos desvios da Petrobras e quais negociatas patrocinaram, direta e indiretamente. Pelo menos, um petardo no atual governo é certo. Cunha já acusou o secretário do Programa de Parcerias de Investimento do atual governo, Moreira Franco, de estar por trás de irregularidades na operação para financiar as obras do Porto Maravilha, no Rio de Janeiro. Neste caso, o próprio ex-presidente da Câmara é acusado de receber R$ 52 milhões em propina. Se Cunha tiver disposto a fornecer novos detalhes das tramóias feitas durante as liberações de crédito pela Caixa, os investigadores acreditam que podem chegar a mais um ministro: Geddel Vieira Lima (PMDB-BA).
Nas últimas semanas, ao mesmo tempo em que pedia ajuda, Cunha fazia questão de avisar ao governo e a antigos aliados que já estava preparado para as conseqüências da prisão. Durante um dos discursos de defesa do seu mandato na Câmara, ameaçou. “Hoje sou eu. É o efeito Orloff. Vocês, amanhã”, afirmou. Um recado digno de causar arrepio a deputados que ajudou a eleger. Um dos inquéritos abertos contra Cunha e que envolve aliados seus dá a medida do alcance de sua teia. Os atuais deputados André Moura (PSC-SE), líder do governo na Câmara, Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), Altineu Côrtes (PMDB-RJ) e Manoel Junior (PMDB-PB) se tornaram investigados sob suspeita de, comandados por Cunha, terem atuado na Câmara para achacar a empresa Schahin, por conta de uma disputa comercial que ela mantinha com o corretor de valores Lúcio Bolonha Funaro, amigo do ex-presidente da Câmara que atualmente se encontra preso por determinação do Supremo Tribunal Federal. Um dos fundamentos de sua prisão é que ele agia “subrepticiamente” por meio de terceiros para cometer crimes, dentre eles parlamentares aliados.
A relação que Cunha mantinha com Funaro abre outro flanco contra Geddel. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostraram Funaro afirmando que Geddel tem “boca de jacaré para receber” e que tentava prejudicar negócios dos quais não participava, na época em que o ministro era vice-presidente da Caixa Econômica Federal. O material está nas mãos da Procuradoria-Geral da República. Cunha mantinha influência na Caixa por meio de seu apadrinhado Fábio Cleto, que também ocupava uma vice-presidência do banco público e revelou, em delação premiada, achacar empresas a pedido de Cunha em troca de propina.
O mundo empresarial também reúne motivos de sobra para se preocupar com uma eventual delação. O ex-deputado agia como verdadeiro lobista de grandes empresas na Câmara. Um dos grupos beneficiados pelo ex-parlamentar foi o das operadoras de planos de saúde. Elas seriam diretamente beneficiadas por uma articulação que perdoaria R$ 2 bilhões em multas do setor. Por meio de uma emenda “jabuti” à Medida Provisória 627, que tratava da tributação de empresas no exterior, o então líder do PMDB tentou agradar planos de saúde que financiaram sua campanha e a de aliados. Com sua influência, Cunha conseguiu costurar a aprovação do perdão às dívidas na Câmara e no Senado. O texto só não vigorou porque recebeu o veto da presidente Dilma Rousseff.
Outra beneficiada por uma emenda de Cunha foi o Grupo Libra. Detentor de uma dívida milionária com o governo federal, o conglomerado de logística obteve autorização para administrar uma área do Porto de Santos (SP). A brecha na lei criada por uma decisão do ex-presidente permitia a empresas em dívida com a União renovarem contratos de concessão de terminais portuários, beneficiando a empresa que doou para o PMDB em 2014.
Durante a tramitação do Marco Civil da Internet na Câmara, Cunha foi um dos principais opositores a pontos da matéria que contrariavam interesses do setor de telecomunicações. Uma das empresas da área, a Telemont, fez doação de R$ 900 mil ao peemedebista. O Ministério Público Federal revelou também a existência de pagamentos feitos por empresas da família Constantino, dona da Gol Linhas Aéreas e de companhias de ônibus, para a C3 Atividades de Internet, empresa de Cunha e sua mulher. Houve ainda repasses de uma agência de publicidade para a C3 e para a GDAV, empresa em nome dos filhos de Cunha. A agência informou aos procuradores que realizou as transferências a pedido da Gol. O total das transferências ultrapassa R$ 3 milhões. “Não há indício de que as empresas Jesus.com (da C3) e GDAV tenham prestado algum serviço efetivo de publicidade compatível com os valores depositados. Ao analisar possíveis favorecimentos de Eduardo Cunha para empresas de ônibus, consta que em 30/3/2015, o ex-deputado federal, na qualidade de presidente da Câmara dos Deputados, criou uma comissão especial para analisar a isenção de CIDE para as empresas de transporte coletivo urbano municipal e transporte coletivo urbano “alternativo”, escreveram os procuradores da força-tarefa no pedido de prisão.
O que pesa contra o ex-presidente da câmara
Propina na Suíça
Foi denunciado pelo recebimento de R$ 5 milhões em contas secretas na Suíça, que pagaram despesas no exterior
Navios-sonda
O MPF o acusa de receber propina em um contrato de navios-sonda da Petrobras
FGTS
Cunha é acusado de receber de empresas interessadas na liberação de recursos do FI-FGTS, da Caixa
Schahin
Inquérito apura se Cunha e aliados usaram mandatos para pressionar a Schahin a pagar uma dívida com Lúcio Funaro, aliado do peemedebista
Banco
Inquérito apura se Cunha aprovou MPs para beneficiar o banco BTG Pactual, de André Esteves, em troca de propina
Crimes em série
Cunha sabia, desde que teve o mandato cassado em setembro, que a qualquer momento o juiz Sergio Moro expediria sua prisão preventiva. Quando os agentes da Polícia Federal chegaram ao apartamento funcional ocupado irregularmente por Cunha em Brasília na quarta-feira 19, o ex-presidente da Câmara já estava com as malas prontas para o período indeterminado atrás das grades em Curitiba. Motivos não faltavam. O peemedebista acumula acusações de envolvimento no Petrolão e em outros desvios. Responde a três ações penais, sob acusação de receber propinas da Petrobras e do fundo de investimentos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). Sofre ainda outras investigações, como a que apura se ele usou o mandato parlamentar para achacar e favorecer grupos empresariais.
A extensa ficha corrida de Cunha lhe valeu a classificação de “criminoso em série” no despacho de Moro. O ex-presidente da Câmara solto, para o magistrado, ofereceria perigo aos trabalhos da Operação Lava Jato com ameaças a testemunhas. Poderia se valer ainda de dupla cidadania italiana e de contas no exterior desconhecidas pelas autoridades para escapar. Seu patrimônio ilegal seria até 53 vezes maior do que o informado à Receita Federal.
Apesar de já ter precificado o próprio infortúnio, ao desembarcar do jato da Polícia Federal no Paraná, Cunha visivelmente abatido nem de longe lembrava o impávido colosso de tempos atrás. Em fevereiro de 2015, ele foi eleito presidente da Câmara ainda no primeiro turno. Sagrou-se o número 1 da Casa com uma vitória acachapante contra o petista Arlindo Chinaglia, patrocinado pelo governo Dilma. Nos bastidores, cálculos mostravam que até 200 dos 513 parlamentares integravam sua tropa de choque. Com esta força, ele se firmava como um dos homens mais poderosos da política brasileira. Montava a pauta do Legislativo como queria, colocava aliados nas comissões chave e aplicava derrotas constantes à gestão petista. Deu o tiro certeiro para a cassação de Dilma Rousseff ao aceitar o processo de impeachment. Mas seu prestigio ficou abalado quando foram reveladas as contas secretas na Suíça. Perdeu apoio dos aliados para comandar a Casa e passou a ser chamado de gangster no plenário. Agora, preso, um gangster de altíssima periculosidade. 
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sábado, 22 de outubro de 2016

A INTOLERÂNCIA DE CRIVELLA

RIO - O candidato do PRB à prefeitura do Rio, Marcelo Crivella, afirmou, em pregação em 2012, que a homossexualidade pode ter origem no sofrimento do bebê ainda no útero da mãe. Segundo ele, gays merecem compreensão porque podem ser fruto de aborto malsucedido.
O vídeo, divulgado no YouTube, que foi retirado do ar nesta sexta-feira, 21, contrasta com as explicações que Crivella tem dado para o livro Evangelizando a África, publicado quando ele tinha 42 anos, em que se refere à homossexualidade como "mal terrível". O senador tem dito que era "um rapazinho intolerante", quando escreveu o livro, e que não voltou a cometer os mesmos erros.
A gente aprende com o tempo”, disse Crivella, que, nos últimos dias, tem repetido em sua propaganda eleitoral que mudou de opinião e passou a defender a tolerância e os direitos para todos.
Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, Crivella fez as declarações no Cenáculo da Fé, templo no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste, em outubro de 2012. A postagem localizada pelo Estado, intitulada “Como ser de Deus – Bispo Marcelo Crivella”, é de junho de 2014.
“Vocês já repararam como os homossexuais são devotados as suas mães? Já repararam como os homens que se relacionam com outros homens têm verdadeira idolatria pela imagem da sua mãezinha querida? ‘Mamãe, mamãe, mamãe, minha mãezinha, minha mãezinha’. Você vê como uma criança pode sofrer no útero da mãe.”
E continua: “De tal maneira é a vida, que muitas vezes a gente acusa pessoas, às vezes acusam e tratam tão mal um homossexual sem saber os dramas que ele vive, as angústias que ele sofre, os seus problemas. Às vezes se diz: ‘fulano é um pau que nasce torto, e não tem jeito’. Às vezes, a mãe tentou um aborto”.
A mesma lógica se aplica, segundo Crivella, a “muita gente da favela, meninos envolvidos no tráfico, nas drogas”, que nasceriam “já desesperados”. “Imagina você estar no útero da sua mãe e a sua mãe, por uma série de problemas, tentar te matar, não conseguir. Como depois você vai encarar o mundo? É difícil”.
Crivella diz ainda que mulheres das Filipinas criam filhos como se fossem meninas para ter quem cuide delas na velhice. “O menino tinha calcinha, sutiã, passava batom na boca, tinha trancinha no cabelo. Não é esquisito?”. E contou ainda história de uma jovem que garante para as amigas que o novo namorado não é gay. “E ela falou assim: ‘não é, não. Porque eu já fui a casa dele e não tem nenhum porta-retrato da mãe’”, disse Crivella, provocando risos dos fieis.
No vídeo, Crivella ironiza indiretamente católicos pela forma como rezam o terço, ao falar da beleza da oração Pai Nosso. “O sujeito vai e se confessa. ‘Qual o seu pecado?’. ‘Eu roubei a galinha do meu vizinho’ (...). ‘Reza dez Pais Nossos’ (gesticula como se fosse o terço) ‘Pai Nosso, Pai Nosso, Pai Nosso...’ Aí vai uma outra desajuizada e fala: ‘eu roubei o marido da minha vizinha’. ‘Então, vai rezar 500 pai nossos, sua pecadora.’ ‘Pai Nosso, Pai Nosso, Pai Nosso. Ai, meu Deus, Perdi a conta. Vou começar tudo de novo.’, encerrou Crivella, provocando mais risos na plateia.
O vídeo “Como ser de Deus” chegou a ser postado pelo canal do YouTube Amigos do Crivella, que compartilha discursos do senador no Congresso e encontros políticos, e reproduzido em sites ligados à Igreja Universal. Mas foi excluído por este canal e voltou a ser publicado em 2014.
Tolerância. O candidato do PRB a prefeito do Rio, Marcelo Crivella, afirmou em nota que a frase sobre homossexuais foi pinçada em um “momento eleitoral” e “mais uma vez tenta carimbar no candidato uma visão de intolerância que não corresponde à sua vida pública. Tampouco representa o sentido da longa explanação de onde as palavras foram retiradas com objetivo político. Nela, a fraternidade, a compreensão e a tolerância são defendidos.”
O texto destaca que o senador afirma no discurso: "Às vezes, você acusa e trata tão mal um homossexual sem saber os dramas que ele vive, as angústias que ele sofre, os seus problemas". Também recorda que adiante ele diz que "precisamos nascer de Deus" e complementa: “Para nascer de Deus, a gente precisa de uma boa mãe. E a boa mãe é a igreja. Se é uma igreja fanática, emotiva, preocupada, com problemas, ela vai dar a luz a filhos também com problemas. (...) Deus é lógico, (está) no bom senso, nas coisas sensatas, razoáveis, sem radicalismos, sem dramas, sem desequilíbrios que tem sintomas graves na vida social, na existência das pessoas.”
A nota afirma ainda que “não é a primeira vez em que, na reta final das eleições, os adversários tentam explorar a religiosidade do candidato Marcelo Crivella com o objetivo de desgastá-lo diante de parte da opinião pública. Os eleitores já perceberam.”
Sem comentários. Questionado por jornalistas sobre a repercussão dos vídeos, na manhã desta sexta-feira, 21 Crivella disse que "só comentaria assuntos municipais". Ele participou de um encontro com instituições e lideranças ligadas a pessoas com deficiência, no Hotel Windsor Guanabara, no Centro, com o adversário no primeiro turno e agora aliado, Carlos Osório (PSDB).
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TAPAS E BEIJOS

Da Veja
Celebridades do futebol, os dois candidatos a prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PHS) e João Leite (PSDB) deixaram de lado o espírito esportivo e partiram para a guerra no debate televisivo transmitido por VEJA, RedeTV, UOL e Facebook na noite desta sexta-feira. Os dois, que no primeiro turno mantiveram a postura de bons amigos, subiram o tom, trocaram insultos e relembraram, com acusações de traição, da época em que trocavam beijos nos rostos.
A briga começou quando Kalil perguntou se o adversário faria da secretaria municipal de Saúde seria um cabide de emprego do PSDB. “Você se esconde, Kalil. Você participou do governo do Marcio Lacerda (atual prefeito) e ganhou 50 milhões de reais para suas empresas. Você ganhou 50 milhões de reais e não paga IPTU, talvez por isso que a saúde esteja tão ruim”, disparou Leite. Kalil, então, acusou o adversário de usar a pasta como cabide de emprego: “A saúde está ruim porque você colocou sua família. Sua filha foi lotada por dois anos na secretaria, depois entrou seu sobrinho. O problema da secretaria é quando vira empreguismo familiar”, respondeu.
O clima esquentou quando Kalil, ex-dirigente do Atlético Mineiro, afirmou que João Leite, ex-goleiro do Galo, teve seu nome citado em lista do esquema de Furnas e que teria recebido 150 mil reais. O tucano se irritou, gritou com o adversário e pediu direito de resposta, interrompendo-o enquanto falava: “O senhor vai ter que provar. Vai à Justiça provar. O senhor está condenado! Eu quero direito de resposta!”, esbravejou Leite. O cartola provocou: “Ele veio muito nervoso, gente”, ironizou o cartola enquanto era interrompido pelos gritos do adversário. Nesse momento, as apresentadoras tiveram que interferir no debate, pedindo calma.
Beijos
Durante o confronto, João Leite afirmou que as empresas de Alexandre Kalil não recolheram FGTS e lesaram trabalhadores da cidade. Kalil respondeu que o adversário ia ao seu escritório para pedir dinheiro para campanhas anteriores. Em seguida, afirmou que já foi beijado no rosto por Leite, em alusão ao beijo de Judas no rosto de Jesus Cristo.
“Realmente, eu beijei você, Kalil, mas pensava que você fosse outra pessoa. Não dá mais para beijar você”, disse o tucano. Kalil retrucou: “Beijo, se não for de filho, ou é de traidor ou é de gangster. Eu não quero mais o seu beijo não”.
O tucano voltou a atacar Kalil por não pagar IPTU e não recolher a contribuição previdenciária de funcionários de suas empresas. Leite também insistiu em chamar o adversário de empreiteiro e relembrar que ele recebeu dinheiro público em contratos com a prefeitura. “Você fala que é pobre, mas você não sabe o que é a vida de um pobre, Kalil. Você tem Mercedes, Land Rover”, disparou.
Com ironia, Kalil, que está acostumado com o ambiente de hostilidade das torcidas organizadas, provocou ainda mais seu adversário. “A máscara caiu, o anjo perdeu a boca de aluguel. O desespero bateu porque eles vão ficar desempregados. Olha gente, a pesquisa estragou o debate, avacalhou tudo. Eu lamento”, respondeu o cartola, referindo-se à última pesquisa Ibope, em que ele aparece à frente do rival pela primeira vez nas eleições.
A tensão só se dissipou nos dois últimos blocos, quando os candidatos responderam a perguntas de moradores e de internautas. Os dois falaram sobrem temas como mobilidade, saúde, segurança e desemprego.
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