terça-feira, 27 de agosto de 2024

'MENTOR' DE MARÇAL É EX-BBB PRESO POR ESTUPRO E TRÁFICO HUMANO

Raquel Landim, colunista do UOL

'Mentor' de Marçal está preso e tem método mais eficiente que os Bolsonaros

O candidato Pablo Marçal está empatado na liderança das pesquisas de intenção de voto para a Prefeitura de São Paulo com uma campanha baseada exclusivamente nas redes sociais e já disse em entrevistas que se inspirou em um influenciador britânico -americano: Andrew Tate.

É uma espécie de Steve Bannon do candidato do PRTB, com a diferença de que Tate nunca aplicou seus conhecimentos de redes sociais para a política, mas para fazer dinheiro. Exatamente como Marçal vinha fazendo, até agora.

Mas quem é ele? Como seu método funciona? E por que é superior aquele utilizado pelos Bolsonaros?

Emory Andrew Tate III, 37 anos, é filho de um astro do xadrez e foi atleta de kickboxing entre 2005 e 2016. Quando se aposentou do esporte, entrou para a versão britânica do reality Big Brother e viralizou com postagens racistas e homofóbicas. Acabou expulso do reality depois de um vídeo em que agride uma mulher com um cinto.

Tate se tornou um ícone do movimento "red pill", que prega a "retomada" da masculinidade através da misoginia. Hoje ele está em prisão domiciliar na Romênia, acusado de tráfico humano, estupro e formação de organização criminosa para explorar sexualmente mulheres. O influenciador nega as acusações.

Em 2022, Tate se tornou o nome mais buscado no Google, superando o astro Justin Bieber e o presidente Joe Biden, apesar de todas as suas redes terem sido banidas por comentários machistas e homofóbicos, com exceção do Youtube.

E ele conseguiu isso através de um método que criou para trabalhar as redes e é esse método Marçal já disse publicamente que copia - embora nunca tenha endossado os crimes do seu "mentor".

Tate passou a contratar e pagar adolescentes e subempregados para cortar seus vídeos e impulsionar seus conteúdos. Recrutou um verdadeiro "Exército". E os pagamentos vêm de todas as formas: por visualização, por campanha, por lançamento, com concursos por rankings, prêmios em dinheiros, até visitas à sua mansão na Romênia.

Em uma entrevista à Jovem Pan, Marçal afirmou que tem "4 mil pessoas no seu campeonato de corte" e que "paga até um dinheiro relevante". "Eu modelei um americano que fez isso e se tornou o cara mais pesquisado do mundo na Internet", afirmou o candidato.

"Mas só tinha vídeo bonzinho. Daí o pessoal começou a perguntar e eu percebi que os vídeos polêmicos tinham 40 milhões de visualizações. É isso aqui que eu quero", completou.

De acordo com Ícaro de Carvalho, um dos maiores especialista em redes sociais do país, é por isso que Marçal troca de boné, de camisa, ataca os adversários, protagoniza cenas engraçadas e deprimentes, não responde entrevistadores e candidatos. "O Pablo vira uma realidade paralela, que alimenta um mundo de cortes e distribuição", diz.

Para o especialista, a liminar que derrubou as redes sociais de Marçal por abuso de poder econômico por conta do pagamento dos seguidores para produzir os cortes foi totalmente ineficaz.

"Derrubar a conta principal é indiferente, porque todo seu tráfego, sua entrega, seus cortes, estão fora de lá. A sua página é apenas o local de pouso, uma vitrine. A suspensão das redes só serviu para os jornalistas falarem disso e levarem os novos seguidores para a nova página", afirma.

7 x 1 no Bolsonaro

Para o professor João Cezar de Castro, da UERJ, o método de Marçal/Tate é muito mais eficiente do que o utilizado por Jair Bolsonaro na campanha de 2018, inspirado em Steve Bannon.

Naquela época, a grande novidade foi o microdirecionamento digital - a campanha não era mais voltada para propostas, mas para o usuário. Cada grupo recebia uma mensagem diferente por meio das redes sociais.

E os bolsonaristas utilizavam para isso uma rede de disparos em massa em grupos de WhatsApp e perfis no Twitter - alguns perfis falsos e outros verdadeiros. Mas nada disso envolvia pagamentos diretos de usuários para a produção e distribuição de cortes de vídeo.

"O que o Andrew Tate e o Marçal fazem é até difícil de comparar com os Bolsonaros. É outra escala. Perto deles o Carlos Bolsonaro é um menino talentoso da quinta série", diz Castro.

Ele pondera, no entanto, que o método de Marçal está fora da lei, porque a legislação eleitoral não permite o pagamento de seguidores para a produção de cortes. Tanto que isso ainda não tem sido utilizado em outros países e já estão sendo movidas ações contra Marçal.

Castro acredita que a Justiça Eleitoral vai acabar proibindo a prática. Ícaro de Carvalho discorda. "Depois do que o Pablo fez, todo candidato vai contratar uma estrutura parecida. Em 2026, a eleição inteira vai ser assim".

Essa matéria é um dos destaques do programa "Radar das Eleições", toda terça-feira no canal do UOL

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis


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25 ANOS SEM DOM HELDER CÂMARA

Beatriz Castro, TV Globo, g1

25 anos sem Dom Helder Camara: relembre a trajetória do líder religioso, marcada pela caridade e luta por direitos humanos

Arcebispo emérito de Olinda e Recife é tema de uma série de reportagens especiais da TV Globo.

Religioso, poeta e humanista. Os títulos, apesar de justos, são insuficientes para traduzir quem foi Dom Helder Camara. O “Dom da Paz”, como é conhecido, morreu no dia 27 de agosto de 1999, há 25 anos, mas seu legado segue vivo até hoje nas obras sociais e projetos fundados por ele (veja vídeo acima).

Um dos líderes religiosos, mais relevantes da história do país, Dom Helder teve um trabalho marcante na luta por direitos humanos, sendo um exemplo de caridade e humildade. Também fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foi bispo auxiliar no Rio de Janeiro e comandou a Arquidiocese de Olinda e Recife por 21 anos.

Para celebrar a história de Dom Helder Camara, a TV Globo preparou uma série especial de reportagens sobre a vida e trajetória do religioso. Aqui no g1, você vai conferir quem foi o arcebispo, o legado social e religioso dele e o processo de beatificação em andamento que corre no Vaticano.

Quem foi Dom Helder

Helder Pessoa Camara nasceu em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, numa família simples e numerosa. Era o 11º dos 13 filhos do jornalista e bibliotecário João e da professora da educação infantil Adelaide.

A vocação religiosa de Dom Helder se revelou desde muito cedo, graças à mãe. Helder cresceu frequentando missas aos domingos e dias santos. Teve aulas de catecismo e gostava de brincar de celebrar missas como um padre. Ainda na infância, teve a certeza do que queria fazer no resto da vida e, aos 14 anos, entrou no seminário.

“Desde pequeno, eu dizia: ‘Quero ser padre, quero ser padre’. Talvez eu nem soubesse direito o que era ser padre. Um dia, meu pai chegou e disse: ‘Meu filho, sempre [...] escuto você dizer que quer ser padre. Você sabe o que é ser padre?’. [...] Ele apresentou o retrato de um padre que eu achei uma coisa lindíssima, formidável. Quando ele terminou, eu disse: ‘Meu pai, é um padre assim que eu quero ser’. Pois bem, ele disse: ‘Deus te abençoe’”, contou Dom Helder em entrevista ao Bom Dia Pernambuco de 15 de agosto de 1991.

O religioso precisou de uma autorização especial do Vaticano para se ordenar padre aos 22 anos, já que não tinha a idade mínima exigida de 24 anos. Segundo o padre e historiador Tiago Oliveira Gomes, o início da trajetória do cearense como sacerdote foi influenciada pela formação conservadora no seminário.

“Ele se envolve muito nestes dois campos de atuação, educação e mundo operário, defendendo a visão católica daquela época. Ele se aproxima do integralismo e vai desagradando algumas pessoas”, declarou o estudioso.

Fundado em 1932 pelo jornalista Plínio Salgado, o integralismo foi um movimento nacionalista de extrema-direita que pregava a defesa da tradição da família e dos valores militares. Segundo o escritor, teólogo e padre Marcelo Barros, apesar do envolvimento inicial, Dom Hélder se afastou do movimento e, por vezes, precisou justificar sua mudança de pensamento.

“Ele disse: meu filho, quem tem inteligência muda, eu estou aberto a mudanças permanentemente. Eu soube mudar. O grande problema na vida é quando a gente não sabe mudar”, contou o padre Marcelo Barros em entrevista à TV Globo.

Acervo preservado

Líder da Igreja Católica em Pernambuco por mais de duas décadas (1964–1985), Dom Helder Camara foi um poeta com vasta produção, tendo escrito mais de 7 mil poesias (veja vídeo acima).

"Tinha a poesia nas suas veias, no seu sangue, na sua pele. Dom Helder conversava conosco de modo poético. Vivia como poesia, se movia, ria, andava poeticamente", afirmou o padre e teólogo Marcelo Barros.

O acervo do arcebispo reúne mais de 220 mil páginas, que estão tombadas a partir de um decreto do governo do estado. O material reúne cartas, crônicas, mensagens e discursos reunidos em mais de 300 caixas.

A preservação desse conteúdo, no entanto, foi ameaçada após o local onde estava guardado o acervo ter sido invadido em 2020. Equipamentos foram quebrados e roubados do instituto que protegia as obras.

A partir de então, foi iniciado um processo que está sendo mantido em sigilo para organização, limpeza e, posteriormente, digitalização. Segundo o historiador do Instituto Dom Helder Camara (Idhec), Felipe Xavier, o religioso tinha o costume de anotar tudo o que pensava: "É por isso que nós temos esse grande acervo", contou.

Outras instituições também fazem parte da salvaguarda do legado literário do Dom da Paz. A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) é parceira no projeto do Idhec, tendo digitalizado 120 mil páginas e feito o tratamento de 16 mil fotos que contam a história de parte do século 20 no estado.

De acordo com a superintendente de digitalização e gestão documental da Cepe, Simone Farias, as imagens do acervo passaram a ter uma maior nitidez. "Quando a gente fala em serviço de digitalização é preservar a informação além do tempo", afirmou.

Segundo a coordenadora do curso de história da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maria do Rosário da Silva, o material ficará à disposição de todos para que pesquisadores e pessoas que admiram a história do arcebispo "possam ter acesso de forma democrática, já que ela fica disponível como um acervo digital", diz.

Com os 25 anos da morte do religioso, o desafio é construir um novo centro de documentação para guardar todos os arquivos em segurança. De acordo com o Idhec, o terreno já foi comprado, e a nova sede do Centro de Documentação (Cedoc) tem previsão de começar a ser construída ainda em 2024.

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UM LEGADO DE FÉ E JUSTIÇA

Da CNBB

25 Anos sem Dom Hélder Câmara: Um legado de fé e justiça

Há 25 anos, a Igreja Católica no Brasil perdeu um de seus mais notáveis pastores, Dom Hélder Câmara, cujo legado permanece vivo especialmente no Estado do Rio de Janeiro e na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Conhecido como o “Irmão dos Pobres”, Dom Hélder desempenhou um papel crucial na renovação da Igreja e na promoção de seu compromisso social.

Nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 1952, Dom Hélder foi um grande articulador da colegialidade episcopal. Sua visão e liderança foram fundamentais para a criação da CNBB, uma instituição que ele ajudou a fundar e onde atuou como Secretário-Geral até 1964. A sede da CNBB foi estabelecida no Palácio Arquiepiscopal de São Joaquim, no Rio de Janeiro, refletindo a importância estratégica da cidade na vida da Igreja no Brasil.

A atuação de Dom Hélder foi além das fronteiras do estado. Ele desempenhou um papel vital na criação do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), durante a 1ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e Caribenho, realizada também no Rio de Janeiro. Dom Hélder não apenas articulou essa criação, mas também serviu como Presidente e Vice-Presidente do CELAM, reforçando sua influência no cenário eclesial latino-americano.

O legado de Dom Hélder Câmara é uma inspiração contínua para a Igreja, que, como ele profetizou, passou de esforços isolados e dispersos para uma atuação mais organizada e comprometida com as questões sociais mais agudas da nação. Mesmo após 25 anos de sua morte, sua memória permanece viva, especialmente no Rio de Janeiro, onde suas ações deixaram marcas indeléveis na história da Igreja Católica no Brasil.

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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

ELEIÇÕES E O OVO DA SERPENTE

Artigo de Fernando Gabeira

Sinto que é hora de planejar férias. Nada de grandes viagens, mas apenas um mergulho no território da literatura e de outras artes. Isso me ajudou na pandemia. Encontrei a obra de Jorge Luis Borges, quatro volumes editados pela Globo Livros, um refúgio de sensibilidade e erudição. Saltei alguns poemas, mas foi um tempo enriquecedor.

O ato de interpretar o cotidiano da política brasileira desgasta e pede um respiro anual. Pressenti o desgaste do STF quando decidiu julgar, sem estrutura adicional, milhares de pessoas. Prisões consideradas ilegais, problemas na própria cadeia, gente com câncer precisando de tratamento e, sobretudo, penas consideradas muito pesadas — enfim, uma sequência de problemas que acabariam se voltando contra a Corte.

Tentei ser discreto, mas não deixei de mencionar minha apreensão. O resultado foi a desconfiança de que protegia a direita. Da mesma forma que a própria direita acusa a defesa de direitos humanos como proteção de bandidos.

O Supremo agora tomou uma decisão importante, determinando que as emendas parlamentares sejam transparentes e rastreáveis. O Congresso queria retaliar, atribuindo-se o poder de anular decisões do STF. Tomar posição nesse caso valeu críticas dos que combatem o STF.

Enfim, como respondeu o personagem de Samuel Beckett que apanhava todos os dias quando lhe perguntaram quem bateu:

— São os mesmos de sempre.

Isso faz parte do jogo e pode ser levado com certo humor. Mas outros problemas me deixam mais preocupado. Pensei que as eleições municipais fossem discutir as mudanças climáticas e a necessidade de melhor proteção das cidades, sobretudo das áreas mais vulneráveis. A observação do debate em São Paulo não só me desapontou, como trouxe à cena uma imensa ameaça. Sabemos que o crime organizado se infiltra na política. Mas, para sobreviver, precisa aceitar as regras do jogo.

O que acontece lá é diferente. Um homem apontado como criminoso por inquéritos policiais entra na cena política cometendo crimes abertamente, como se invadisse uma residência e rendesse a família. E nada acontece.

Talvez tenha uma sensibilidade especial para esse tipo de problema. Mas, para mim, é o desdobramento da política da extrema direita na versão mais agressiva e, infelizmente, com chances de crescer. Steve Bannon, ex-assessor de Trump, já previu o surgimento de uma extrema direita mais audaciosa e disruptiva. Parece que isso acontece no Brasil.

Os ensinamentos básicos são estes: os políticos são corruptos ou comunistas; em ambos os casos, pode-se acusá-los de qualquer coisa sem provas. Para combater o sistema político, todos os meios são válidos, é possível cometer tantos crimes quantos forem tolerados por uma Justiça Eleitoral hesitante e tardia.

As eleições na maior cidade do Brasil trazem um ensinamento sobre o qual será preciso refletir. Não se trata apenas de uma aventura política camuflada pela luta anticorrupção. É um pouco mais que isso. É a mensagem apocalíptica de que todos são criminosos, e é preciso escolher entre os que falam diretamente com seus medos e preconceitos.

Até que ponto isso pode avançar? A extrema direita no poder na Itália temperou seu discurso. Mas essa é a tendência ou o que vemos no Brasil é algo que aponta para algum futuro, um tempo em que a própria tecnologia favorece a barbárie?

Não é simples formular o antídoto. Por onde começar? Pelo mundo político que precisa se voltar para as expectativas elementares da sociedade? Pelos setores da sociedade que conseguem se identificar com a barbárie na esperança de algo melhor?

Desses problemas não se tiram férias. A nova variante da extrema direita não se opõe apenas ao sistema político, à imprensa e à academia. Ela desafia abertamente a lei pelos crimes comuns em que se formou, mas também pela metralhadora giratória de falsas acusações. Houve todo um preparo do TSE para combater fake news. Chegaram com uma nova embalagem e ainda não foram reconhecidos.

Artigo publicado no jornal O Globo em 26/08/2024

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domingo, 25 de agosto de 2024

A FORÇA DE MARÇAL

Pablo Ortellado, O Globo

Força de Marçal não está nos 'cortes', mas na mensagem

Direita populista tem um discurso que ressoa com o público

Pablo Marçal está atualmente empatado em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo, ao lado de Guilherme Boulos e Ricardo Nunes, de acordo com a pesquisa Datafolha. Analistas começaram a atribuir sua ascensão meteórica à estratégia sofisticada de produção e disseminação de vídeos curtos, chamados “cortes”, distribuídos de forma viral em plataformas como o TikTok. Marçal engajou adolescentes em competições remuneradas, em que eram premiados aqueles que conseguissem viralizar seus vídeos mais rapidamente. Mas será que essa é realmente a razão de seu sucesso nas pesquisas?

Nos últimos anos, o entendimento sobre o apelo popular de candidatos populistas e antissistema avançou pouco. Diante da urgência do tema, é alarmante que nossa compreensão permaneça tão limitada. A morosidade se deve, em grande medida, a nossa recusa em enfrentar o problema: a direita populista tem uma mensagem que ressoa com o público.

Em vez de aceitarmos a dura realidade, inventamos desculpas e subterfúgios, atribuindo a ascensão do radicalismo de direita a causas externas exageradas ou ilusórias, que justificam nossa inação. Preferimos a confortável ilusão de que estamos no caminho certo, mas acabamos surpreendidos por forças poderosas e ocultas que surgem não sabemos bem de onde.

Vejamos as eleições presidenciais de 2018 no Brasil. Muitas análises até hoje creditam o sucesso de Bolsonaro aos disparos em massa no WhatsApp. Embora tenham de fato ocorrido e tenham relevância jurídica, visto que violaram a legislação eleitoral, foram mesmo eles que garantiram a vitória de Bolsonaro? Quem se debruçou sobre os disparos sabe que foram caros, ineficientes (afinal, eram spam) e muito menos maciços do que geralmente se acredita. Se tiver dúvidas, pergunte aos mais próximos quantos receberam algum desses disparos.

Infelizmente, a postura que tenta escapar dos problemas difíceis não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, a ascensão de Trump ainda é frequentemente atribuída à Cambridge Analytica ou à interferência russa. A Cambridge Analytica, empresa de marketing digital contratada por Trump, usou ilegalmente dados de usuários do Facebook para criar propaganda personalizada para diferentes tipos de perfil. Apesar disso, poucos estudiosos consideram que a estratégia tenha sido eficaz. Da mesma forma, a interferência russa, apesar de ter impulsionado conteúdos divisivos durante a campanha de 2016, teve alcance limitado e dificilmente impactou significativamente as eleições. Ainda assim, é comum ouvir lideranças democratas e analistas nos jornais atribuindo a vitória de Trump em 2016 aos dois fatores.

No Brasil, a lista de desculpas que adotamos é longa. Além dos disparos em massa, falamos da “mamadeira de piroca”, das campanhas de desinformação, dos grupos de WhatsApp do “Carluxo”, da genialidade maligna de Steve Bannon, das redes ocultas de financiamento empresarial, do grande domínio da direita nas redes e, claro, dos algoritmos enviesados das plataformas digitais. Falamos muito de todas essas causas externas, mas raramente encaramos os verdadeiros problemas: as falhas do nosso sistema político, a cisão moral gerada pelas guerras culturais e a incapacidade das forças políticas tradicionais de apresentar uma alternativa convincente à oferecida pela nova direita.

Não quero minimizar a importância jurídica das denúncias sobre os “cortes” de Marçal. Ao que tudo indica, pagar a adolescentes para produzir e distribuir vídeos com recursos não declarados é flagrantemente ilegal, conforme as normas da Justiça Eleitoral. Se isso for comprovado, Marçal deve ser punido com a força da lei. Mas essa não é a questão central.

O verdadeiro problema surge quando atribuímos a força de sua candidatura ao emprego desse expediente. Marçal desenvolveu uma estratégia de campanha on-line muito eficiente e soube fazer bom uso da presença nos debates televisivos. No entanto nada disso seria suficiente se seus ataques indignados ao sistema, à ineficiência do setor público e à leniência com a corrupção e o crime não encontrassem eco em parcela significativa da população. É para esse ponto que precisamos olhar se quisermos encontrar uma solução que esvazie de força política a perigosa direita populista.

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DE VOLTA AO FUTURO

Merval Pereira, O Globo

Marçal é Bolsonaro ao quadrado e, assim como o ex-presidente fez, abusa das redes e do sentimento dos eleitores contra ‘o sistema’

A melhor chance de Boulos vencer a eleição para prefeito de São Paulo é ter o coach Marçal como adversário no segundo turno. Contra Nunes, as chances de Boulos se reduzem. Contra Marçal, a fama de radical de Boulos se esvazia. Marçal é Bolsonaro ao quadrado, ou Bolsonaro de volta ao futuro. Foi eleito presidente da mesma maneira que Marçal se apresenta hoje, sem apoio político formal, usando e abusando das mídias sociais, refletindo um sentimento bruto dos eleitores contra “o sistema”, ao qual serviu durante vários mandatos parlamentares, mas que o relegou ao fundo do plenário da Câmara, no baixo clero que disputava as sobras dos privilégios dos deputados e senadores “do sistema”.

Lançou-se candidato à Presidência da República pensando em ficar conhecido, contra tudo e contra todos, e acabou vencendo, num momento em que o eleitor médio queria sangue, não acordos ou moderação. Continuamos nesse clima de guerra em São Paulo, mais do que nunca representado por candidatos apoiados por Lula e Bolsonaro. A fama de Boulos o precede. Apesar da retórica moderada de agora, é visto como mais radical até do que Lula, a besta-fera da direita.

Ao contrário, Nunes não é o candidato dos sonhos de Bolsonaro, como o próprio confessou recentemente. Não reflete nem de longe a agressividade e brutalidade dos Bolsonaros, mas tem a máquina municipal e muitas obras para mostrar. Diante de Marçal, o prefeito em busca da reeleição parece um candidato do centro, caindo um pouco para a direita, com muita dificuldade, diga-se. Não que seja de esquerda, longe disso, mas não é à toa que está perdendo eleitores dentro dos bolsonaristas, apesar da contrariedade de Bolsonaro.

Se continuar assim, não será surpresa se Bolsonaro voltar às origens e apoiar Marçal, com todos os riscos que isso representaria. Marçal disputa os eleitores com o próprio Bolsonaro, que ainda pensa ser possível uma candidatura em 2026. No momento, não há nada que indique essa possibilidade. Ainda mais agora que Bolsonaro anuncia sua presença na manifestação de 7 de setembro convocada especialmente para pedir o impeachment do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Qual é o clima político que permitiria uma anistia a tempo de Bolsonaro disputar a eleição de 2026? Com tantos candidatos da direita surgindo como possíveis postulantes à Presidência da República, difícil achar um que abra mão efetivamente da reeleição, se eleito. Não creio que isso aconteça, embora, em algum momento depois da eleição de 2026, ganhando um representante da direita, Bolsonaro possa vir a ser anistiado.

Na política, como na vida, no entanto, há sempre senões. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ou outro candidato da direita, eleito presidente da República, terá interesse em anistiar Bolsonaro? Na prática, não seria necessário, pois o ex-presidente estará apto a disputar eleições em 2030. Mas uma reabilitação oficial teria um efeito simbólico importante para o ex-presidente. O presidente de direita eleito em 2026 terá interesse em ter Bolsonaro como seu adversário à reeleição em 2030? Marçal, eleito prefeito de São Paulo, teria interesse na anistia a Bolsonaro quando ele próprio poderá se lançar candidato à Presidência em 2026?

Esse fantasma, aliás, vem assustando os assessores do ex-presidente, que no momento está disposto a dobrar suas fichas no apoio ao prefeito Ricardo Nunes que, por sua vez, terá que investir mais na direita radical para se contrapor a Marçal e ao radicalismo de esquerda de Boulos — que, no entanto, tenta se distanciar da imagem radical do início da atuação do Movimentos dos Sem-teto (MST) para se apresentar, como Lula fez na eleição de 2022, como o defensor da democracia. Deu certo com Lula, não sei se dará certo com Boulos, especialmente depois que o atual presidente relegou um governo de centro democrático para fortalecer a esquerda do seu partido. Mas tendo Marçal como adversário no segundo turno, crescem as chances de Boulos.

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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

EMBOLADA PAULISTANA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao ordenar ataque a Marçal, Bolsonaro tenta manter controle da extrema direita

Avanço de coach em SP preocupa ex-presidente e obrigará Ricardo Nunes a recalcular a rota

Até outro dia, Ricardo Nunes acreditou que a reeleição cairia em seu colo. O prefeito de São Paulo imaginava estar diante de um roteiro tranquilo. Sem rivais à direita, seria impulsionado pelo peso da máquina e pela rejeição a Guilherme Boulos, visto como radical pelo conservadorismo paulistano. Neste cenário, Nunes herdaria os votos bolsonaristas sem muito esforço. Nem precisaria fazer arminha com os dedos.

A pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha mostra que o prefeito precisará recalcular a rota. Em duas semanas, o nanico Pablo Marçal subiu sete pontos, foi a 21% e passou a aparecer numericamente à frente de Nunes, que recuou para 19%. Boulos oscilou para cima e tem 23%. Os três candidatos estão em empate técnico, mas a situação do emedebista parece ser a mais complicada do trio.

Ex-vice de Bruno Covas, Nunes assumiu a prefeitura após a morte do tucano, no quinto mês de mandato. Teve mais de três anos para se tornar conhecido e construir uma imagem positiva. Até aqui, não conseguiu. Sua gestão é boa ou ótima para 25%, mesmo percentual que a define como ruim ou péssima. Quase metade (48%) crava razoável, o que sugere uma cidade indiferente ao alcaide de plantão.

Marçal já lidera a corrida na raia da extrema direita, que vibra com seu estilo rude e histriônico. Este público vê Nunes como um político convencional, um representante do sistema que o capitão diz combater. Em julho, o prefeito piscou para a turma ao insultar Boulos e entregar a vice a um policial bolsonarista. Não bastou, e ele agora será pressionado a radicalizar mais para não acabar fora do segundo turno.

Há apenas oito dias, Jair Bolsonaro disse que Nunes não era seu “candidato dos sonhos” e fez elogios a Marçal. Alguém o avisou do perigo, e ele passou a usar os filhos para torpedear o coach nas redes. A rusga pode definir quem comandará a ultradireita nos próximos ciclos eleitorais, com o capitão impedido de concorrer.

A campanha de Boulos mantém o discurso de que Marçal é problema para Nunes, que ficará cada mais refém de Bolsonaro. Mas a preocupação com o aventureiro também começa a aumentar na esquerda. O maior temor é que seu crescimento ganhe os contornos de uma onda, como a que levou João Doria à prefeitura em 2016.

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QUAL É O TETO DE PABLO MARÇAL ?

César Felício, Valor Econômico

Ascensão de ‘coach’ alimenta cenário de pós-bolsonarismo

Quando e onde Pablo Marçal (PRTB) irá parar? Essa é a pergunta única na eleição para prefeito de São Paulo, reforçada pela pesquisa Datafolha desta quinta-feira e já antevista pelo levantamento AtlasIntel de quarta-feira. Para ficar nos dados do Datafolha, Marçal tinha 7% em maio, foi para 10% em junho, 14% em julho e 21% agora. O deputado federal Guilherme Boulos (Psol) está numericamente à frente, com 23%, mas patina: em maio tinha 24%. Marçal claramente tira votos de prefeito Ricardo Nunes (MDB), que desceu de 23% para 19%, e esse mês também de José Luiz Datena (PSDB), que foi de 14% para 10%.

Não há muito segredo sobre o crescimento. Marçal se destacou nos dois primeiros debates entre os candidatos por agressões contra seus rivais sem apresentação de evidências para sustentar suas "acusações". Caracterizou Boulos como consumidor de cocaína, Tabata Amaral (PSB) como "para-choque de comunista" e o prefeito como político tacanho e rendido ao sistema político. Buscou seduzir a direita simulando uma proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro de que não dispõe. Simultaneamente inundou as redes sociais com os "cortes" dos debates e estimulou seus seguidores a viralizarem suas publicações. De acordo com notícia divulgada pelo jornal "Folha de S.Paulo", há indícios de que em troca de vantagens financeiras.

Quem assistiu um episódio da minissérie "Black Mirror", de 2013, talvez não tenha se esquecido do ursinho Waldo. Waldo era um personagem de desenho animado, que interagia com personagens reais, no caso políticos desavisados que compareciam a um talk show. Eram humilhados e insultados no ar, de forma ultrajante, e não conseguiam reagir. O ursinho vira um fenômeno nas redes sociais e entra em uma campanha para deputado no Reino Unido. Termina em segundo, em um clima de intensa intolerância política. E no tempo dessa minissérie as redes sociais engatinhavam.

O "momento Waldo" da eleição de São Paulo catapultou Marçal para a liderança, por enquanto compartilhada. Mas agora começa uma fase difícil para ele. O candidato tornou-se alvo de intenso noticiário negativo e, ao contrário de seus adversários, não dispõe de horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão. Conta com um time de advogados para tentar cavar direitos de resposta ao bombardeio que com certeza sofrerá de seus adversários, especialmente de Boulos, que precisa tentar descredenciá-lo como forma de se blindar dos ataques do coach do PRTB. Em 2018 a campanha negativa contra Bolsonaro foi sustada depois que um ex-militante do Psol, com problemas mentais, tentou assassiná-lo em Juiz de Fora (MG). Agora não há freios contra Marçal.

O "coach" também não tem um esquadrão de candidatos a vereador e nem fundos de campanha para chegar a determinadas camadas do eleitorado menos sujeitas a fenômenos digitais. E seu avanço pela direita pode ser contido caso Bolsonaro se mobilize contra ele. O ex-presidente parece sentir incômodo com o crescimento dessa variante em seu terreno que está fora de seu controle. Antonio Lavareda, cientista político do Ipespe, lembra que a conjuntura de São Paulo em 2024 é bastante diferente da do Brasil em 2018, tão favorável a "outsiders".

"Marçal é uma varietal da mesma uva, mas não da mesma safra", comenta, ao compará-lo com fenômenos como Bolsonaro há seis anos, João Doria e Alexandre Kalil em Belo Horizonte há oito. E o clima é diferente. Não há uma crise econômica como a que havia entre 2016 e 2018, nem um colapso político, nem um fator disruptivo como a Lava-Jato. Essas limitações sugerem que o teto de Marçal pode estar próximo do observado nessa rodada de pesquisas.

Será o suficiente para colocá-lo no segundo turno? É possível. Com a fragmentação do eleitorado paulistano em quatro candidaturas acima de dois dígitos, o sarrafo baixa. Para Boulos ir ao segundo turno em 2020 bastou 20,2% dos votos válidos, ou apenas 12% dos votos totais. A eleição de 2020 talvez não seja parâmetro porque a epidemia de covid-19 aumentou a abstenção, mas em outra eleição fracionada, a de 2000, Paulo Maluf foi ao segundo turno com 17,4% dos válidos e 13,4% dos totais.

Nunes tem dois desafios para reagir a Marçal: engajar Jair Bolsonaro na campanha e aguardar pelo esvaziamento de José Luiz Datena. Datena, que despencou de 14% para 10% depois de seu desempenho mirim nos debates, concentra uma boa base de seu eleitorado no voto conservador de baixa renda (evangélico até dois salários mínimos e com ensino até o fundamental). Este eleitorado conhece Datena há décadas da televisão e do rádio e talvez não se impressione tanto com o despreparo político do tucano. Se Datena não derreter, e talvez não derreta, bloqueia um eleitorado que poderia ir com facilidade para o prefeito.

Boulos está muito aquém do seu eleitorado potencial, que é o lulista. Tem espaço para reagir caso o presidente e o PT se engajem em sua campanha. Mas a campanha de destruição promovida por Marçal fez subir sua rejeição para 37%, a mais alta entre os candidatos, o que pode comprometer suas possibilidades em um segundo turno, em qualquer cenário. A Folha não testou um cenário entre Boulos e Marçal no segundo turno, mas o fato de sua rejeição estar três pontos percentuais acima da do candidato do PRTB sugere um prognóstico imprevisível.

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DELFIM E LULA, O ENCONTRO DOS DIFERENTES

José de Souza Martins, Valor Econômico

A manifestação de consciência social de convergência entre os dois tem sentido em elementos da realidade social que explicam a biografia de ambos

A proximidade que se estabeleceu entre Delfim Netto e Lula, a partir do segundo mandato deste, levanta críticas ao PT por não ter em conta o quanto o primeiro foi personagem da ditadura militar. Lula se desculpou com Delfim pelos ataques que lhe dirigira. Via agora a economia delfiniana com outros olhos. Mas ainda é, para as esquerdas, imperdoável que tenha sido ele um dos signatários do Ato Institucional nº 5, que consolidou no país uma era de terror político.

Delfim nunca negou que o fizera. Na conjuntura que aqui então se vivia, assinaria de novo o Ato 5. Justificou-se no “Roda Viva”, em 2019: “Não tem arrependimento possível sobre alguma coisa que você não tem nenhum controle”.

Porém, é impossível compreender uma herança inesquecível como essa, quando se é prisioneiro do binarismo ideológico de esquerda e direita.

Nessas duas tendências há sutilezas sociais que mediatizam o processo histórico e a elas não se reduzem. Há um conjunto significativo de possibilidades políticas, hoje capturadas pela direita, por omissão da esquerda, que só se realizarão pela mediação da práxis, isto é, na perspectiva da esquerda. Essa é a dimensão sociológica da questão.

A manifestação de consciência social de convergência de Delfim e Lula tem sentido em elementos da realidade social que explicam a biografia de ambos e de outras personagens do momento histórico que ambos simbolizam.

Ao longo de sua vida, Delfim foi um professor, na USP e na política. A importância desse fato em sua biografia pode ser facilmente constatada pela comparação de Delfim com o melancólico desempenho do ministro da Economia de Bolsonaro no espetáculo deplorável da reunião do governo em 22 de abril de 2020. Guedes citou Keynes para invalidar a importância teórica do grande economista inglês, professor da Universidade de Cambridge. E validar sua própria concepção neoliberal da política econômica do governo.

Ministro, Delfim, uma manhã por semana, realizava em seu gabinete um seminário de estudo com seus auxiliares, como se ainda estivesse numa universidade, na sala de aula. Saber para fazer política, no lugar de fazer política sem saber, do bolsonarismo.

O saber como resultado da pluralidade do conhecimento e de seu emprego. Como o demonstrou num artigo na “Folha de S. Paulo”, em 2009, significativamente intitulado “Por que Keynes?”: a “crise que estamos vivendo, produzida pela maléfica ‘autonomização’ do sistema financeiro, encontra a sua melhor explicação em Keynes”. Reconhecia-se keynesiano: criar renda para criar emprego para criar renda e a função do gasto público nessa causação virtuosa. Algo como a causação circular e acumulativa, de Gunnar Myrdal.

Numa palestra na Academia Paulista de Letras, Delfim contou que fora socialista fabiano, o socialismo a ser alcançado por mudanças sociais gradualistas e reformistas. O Estado do bem-estar social, na Inglaterra, foi produto de uma política social de inspiração fabiana.

Há um cenário espacial e social de conjuntura histórica, que explica as condições convergentes das referências secundárias, mas decisivas, de biografias como a de Delfim, Lula e também Serra, personagens do mesmo momento político. Delfim nasceu e cresceu no Cambuci, em 1928. Serra nasceu na Mooca, em 1942. Lula nasceu em 1945, em Pernambuco, e ainda criança migrou com a família para a Vila Carioca, à procura do pai. Naquela época, de um desses bairros podia-se ver o outro, num cenário atravessado pelo rio Tamanduateí.

Região da industrialização, de trabalhadores, católica. De imigrantes de segunda ou terceira geração ou de migrantes vindos para trabalhar nas fábricas da região. Gente motivada pela esperança da ascensão social pelo trabalho, beneficiada pela revolução educacional paulista decorrente da reação à derrota na Revolução de 1932. Da USP às escolas primárias dos bairros e da roça por ela influenciadas, um horizonte comum por diferentes caminhos promovia a superação da escravidão ainda próxima. Estávamos a apenas meio século da Lei Áurea.

Delfim, Serra e Lula são os filhos da estratégia de abolição da escravatura, desenvolvida por Antonio da Silva Prado, do Partido Conservador, do Império, e da família de fazendeiros de café mais rica do Brasil. Promover a imigração subvencionada e oferecer aos fazendeiros, sem custo, a mão de obra livre que os livraria das irracionalidades do trabalho escravo.

Disse ele no Senado, em 1888: “Se o imigrante for morigerado, sóbrio e laborioso, formará pecúlio e terá sua própria terra”. No trabalho nos cafezais, possibilidade de acesso à terra de trabalho. Era a formulação da ideologia brasileira do trabalho livre. Origem de Delfim, Serra e Lula.

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O DESAFIO DA RECONSTRUÇÃO INSTITUCIONAL

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

É necessário haver um novo equilíbrio de Poderes que vá além do Congresso Nacional

Entre 1993 e 2013, o sistema político brasileiro foi capaz de implementar as melhores ideias da Constituição de 1988 e reformá-la para alcançar um equilíbrio inédito entre democracia, estabilidade econômica e inclusão social. Depois dessa onda positiva, veio a avalanche de quase dez anos de deterioração institucional, aumento da polarização destrutiva e perda da qualidade de várias políticas públicas. O Brasil ainda não saiu por completo dessa crise, e a reconstrução das relações entre os Poderes é um fator essencial para gerar padrões decisórios capazes de colocar o país num novo rumo de desenvolvimento.

O presidencialismo de coalizão construído depois do impeachment de Collor certamente não era perfeito. Muitas crises ocorreram em sua trajetória, com CPIs estridentes e reveladoras, montagem de maiorias parlamentares por vezes a partir de meios ilícitos e, ao final do período, um grande movimento nas ruas pediu maior responsividade do sistema político em relação à sociedade. Inegavelmente havia problemas, só que reformas estavam sendo feitas constantemente (mesmo que fossem incompletas para parte da população) e as políticas públicas eram aperfeiçoadas incrementalmente, com melhoria dos principais indicadores da vida dos cidadãos brasileiros, especialmente os que viviam em situação mais vulnerável.

Muitas das críticas ignoravam o fato de que o modelo institucional brasileiro tem duas qualidades essenciais à estabilidade e ao desenvolvimento do país. A primeira é conseguir lidar com a pluralidade de grupos sociais e dinâmicas territoriais de uma nação federativa bastante complexa. Pode haver algum exagero em sua característica mais consociativa, marcada pela divisão do poder entre vários atores institucionais. Entretanto, se o sistema político fosse mais concentrador e definido pela lógica meramente majoritária - o “vencedor leva tudo” -, o processo decisório poderia ser apenas um jogo de vetos e com poucos controles sobre os governantes. Numa estrutura desse tipo, a polarização atual mais facilmente se transformaria em golpe de Estado ou em completa inviabilização dos governos.

A segunda qualidade dizia respeito à capacidade de produzir negociação entre posições diferentes, presente tanto em espaços institucionais como nas características de muitas lideranças pós-Collor. É interessante notar que mesmo sendo um sistema político com múltiplos atores e controles, sempre houve a possibilidade de saídas institucionais vinculadas a acordos interinstitucionais e/ou entre os atores mais relevantes. A competição entre PSDB e PT foi intensa, mas houve uma enorme continuidade de políticas públicas entre os governos dos dois partidos, fruto de um diálogo entre partidos, sociedade, burocratas e entes federativos.

Essa característica de conversa e acordos dentro do presidencialismo de coalizão foi perdendo a força desde as mobilizações de junho de 2013. Os momentos de lucidez e diálogo se reduziram, embora tenham sido eles que evitaram crises maiores. O país está hoje com Poderes desequilibrados e uma grande parcela dos políticos atuando em prol do aumento do conflito, inclusive sobre assuntos desimportantes, mas que dão ibope para parte do eleitorado - ou likes na internet. Esse jogo centrífugo parece beneficiar cada ator institucional no curto prazo, mas já está levando a derrotas da coletividade - piora na alocação orçamentária, por exemplo - e tende a levar a perda de todos no longo prazo.

A crise recente envolvendo a decisão do ministro Flávio Dino sobre as emendas parlamentares deveria ser um ponto de inflexão nas principais lideranças do país. A questão em si já é um ponto central da reformulação da relação entre os Poderes e um freio de arrumação no presidencialismo de coalizão que se tornou mais fragmentado e menos cooperativo. Gastar bilhões de reais sem transparência, de modo quase nada articulado com as políticas públicas e num nível de despesas que comprime os investimentos públicos federais, não é sustentável política e socialmente.

Em pouco tempo, certamente antes das eleições de 2026, essa montanha de poder vai parir resultados negativos para os congressistas. Primeiro virão os escândalos com emendas Pix e afins. Já há vários indícios de irregularidades e não tardarão para a imprensa e as redes sociais ficarem recheadas de denúncias que só enfraquecem os congressistas atuais. Pesquisas qualitativas já têm medido uma visão cada vez mais negativa sobre o emendismo exacerbado.

Como corolário desse processo, uma nova leva de candidaturas antipolítica aparecerá, somando-se aos já encastelados no bolsonarismo-raiz. Quem está atordoado com a ascensão meteórica de Pablo Marçal deveria temer não a figura em si, mas o que ela representa. Quanto mais a política se parecer para o grande público com um jogo fechado para poucos (e ela não tem sido?), mais oportunidades para outsiders irresponsáveis surgirem.

Na verdade, após a crise de legitimidade causada pela combinação de manifestações de rua, Lava-Jato, impeachment presidencial e crescimento da extrema direita antipolítica, o núcleo principal da classe política, hoje hegemonizado pelo Centrão, fortaleceu as características mais oligárquicas do sistema. Isto é, criou regras que aumentam os recursos em prol da reeleição deles mesmos - a soma de orçamento emendista com Fundos Partidário e eleitoral não encontra paralelo com outras democracias. Como se dizia nos bailes de antigamente, quem está dentro não sai, quem está fora não entra. Esse modelo pode favorecer a reprodução dessa parcela majoritária de parlamentares, que justiça seja feita é mais democrática e responsável que tipos como Nikolas Ferreira e Pablo Marçal. Mas o sucesso dessa engenharia política pode se desgastar muito até 2026.

Nas próximas eleições gerais, a classe política fortalecida por esse modelo mais oligárquico vai enfrentar dois competidores importantes. Um deles é o grupo daqueles que se alinharem organicamente com as políticas públicas do governo federal e/ou dos governos estaduais. A era Bolsonaro caracterizava-se por um governo sem políticas públicas e baseado na guerra cultural. O lulismo sempre esteve acoplado à escolha de programas governamentais que sustentam sua legitimidade, e obviamente uma parte dos congressistas vai tentar se casar com esses veículos de voto. É interessante notar que a mudança no plano nacional gerou impactos nos estados, e se vê um número maior de governadores, de vários espectros, tentando criar modelos setoriais mais estruturados, com possibilidade de gerar benefícios eleitorais por meio dessas políticas específicas.

Políticos do Centrão poderão se beneficiar de modelos baseados em políticas públicas, mas por ora estão preferindo o padrão fragmentado do emendismo, o que é arriscado. O pior é que ainda concorrerão com candidatos que pouco se vinculam ao uso dos recursos do poder estatal. Esses são compostos não só pelos antipolíticos típicos, mas também por gente vinculada a igrejas, grupos econômicos influentes e agentes da segurança pública. É bem provável que o jogo eleitoral de 2026 seja mais difícil para a classe política hoje hegemônica no Congresso Nacional do que foi em 2022, com possibilidade de redução do seu índice de reeleição, caso não mudem parte de sua estratégia.

A reconstrução institucional passa por um novo equilíbrio de Poderes que vai além do Congresso Nacional. No plano da Federação, as relações melhoraram muito desde a posse de Lula e dos novos governadores. Também tem havido um diálogo maior entre os órgãos de controle e os gestores de políticas públicas, mesmo que ainda permaneçam exageros fiscalizatórios. O problema é que o pacto para revigorar o presidencialismo de coalizão deve passar igualmente pela mudança de parte da rota do STF e do Executivo federal.

No caso do Supremo Tribunal Federal, é preciso fortalecer as decisões colegiadas e reduzir a concentração de poderes nas mãos do ministro Alexandre de Moraes. Ele foi o ator mais importante na garantia da democracia contra a tentativa de golpe bolsonarista, e os áudios recém-publicados sobre sua atuação estão bem longe do comportamento ilegal e antirrepublicano captado pela Vaza Jato. Todavia, Moraes e o próprio STF ganhariam muito em legitimidade se os processos concentrados em suas mãos pudessem ter alguma divisão com os outros ministros. Isso seria um sinal positivo para a normalização da situação e para um julgamento mais blindado dos processos envolvendo Bolsonaro.

Quanto ao Executivo, duas coisas são centrais. A primeira é que a reformulação do emendismo vai exigir maior divisão do poder decisório junto ao Centrão. Não se trata necessariamente de fisiologismo, muito menos de corrupção. Não obstante, os parlamentares fora da coligação eleitoral vencedora precisam participar da decisão e dos créditos das políticas públicas lulistas, para revigorar a ideia de coalizão que sustenta a governabilidade. Mas, tão ou mais importante do que isso, a reconstrução institucional vai exigir muito da liderança do presidente Lula, como interlocutor e agregador da ação conjunta dos Poderes. Entre outras razões, por isso que o sistema se chama presidencialismo: porque o líder presidencial deve ser o construtor de caminhos melhores para o país em conjunto com o Legislativo, o Sistema de Justiça e a Federação.
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quinta-feira, 22 de agosto de 2024

SENADO QUER CRIANÇA PERTO DE ARMA

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

É um acinte projeto que libera clubes de tiro a menos de 1 km de onde o seu filho estuda

No país em que 46.328 pessoas morreram de forma violenta em 2023 —73,6% por arma de fogo—, é um acinte que o Senado Federal pense que não há nada mais urgente do que votar um projeto que permite que clubes de tiro sejam instalados perto de escolas. Na última terça-feira (20), senadores aprovaram pedido de urgência para votar o PDL (projeto de decreto legislativo) que susta parte do decreto de armas do governo Lula (PT), sem possibilidade de veto presidencial.

Fora o risco da violência, há o problema do barulho de tiro constante: em 2022, a cidade gaúcha de Santo Augusto, de apenas 13 mil habitantes, proibiu clubes de tiro a menos de 3 km de escolas devido a reclamações reiteradas de sons de disparos ao ar livre a qualquer hora do dia. E essa não é a única mudança ultrajante.

O projeto modifica outros pontos essenciais. O PDL retira os critérios para colecionar armas de fogo no país. Isso abre a brecha para que o colecionamento de armas funcione como uma porta de entrada para aquisição de armamentos sem o controle devido, inclusive de fuzis. O efeito pode ser o mesmo depois que Bolsonaro flexibilizou o tiro desportivo.

O PDL, ademais, permite qualquer arma de gás comprimido; esta não é só a arma de chumbinho ou de "paintball". Algumas delas têm energia na saída do projétil mais potente do que armas de fogo, apontam especialistas. O projeto, ainda, acaba com o requisito da habitualidade para tiro desportivo, passando a não prever mais um número mínimo de tiros de treino ou de permanência (não é necessário que o praticante de tiro vá todos os dias ao clube).

Senadores querem instalar clubes de tiro a menos de 1 km de onde o seu filho estuda. Quero ver como a bancada da bala vai defender, na próxima eleição, que arma de fogo perto de escolas é bom para crianças. Entre 2021 e 2023, 3 em cada 10 crianças mortas de forma violenta no país foram vitimadas por armas de fogo; agora o Senado Federal quer que o próximo seja o seu filho.
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UMA FESTA DISCRETA

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

Há mais de meio século, Frei Betto é personagem de primeiro plano da história nacional. O semblante que o Brasil tem hoje leva sinais da sua caligrafia e da sua pedagogia

Carlos Alberto Libânio Christo, o dominicano Frei Betto, é um autor de letras diversas e números altos. Escreveu 74 livros. Tem 64 obras publicadas no exterior. Apenas um de seus títulos, Fidel e a Religião, lançado no Brasil em 1985 pela Editora Brasiliense, foi publicado em outros 28 países. Além de autor, ele é também educador popular. Ajudou a formar milhares de ativistas no Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra, o MST, e em outras organizações sociais. O semblante que o Brasil tem hoje leva sinais da sua caligrafia e sua pedagogia. Há mais de meio século, Betto, como ele prefere ser chamado, é personagem de primeiro plano da história nacional.

Com sua jaqueta jeans à guisa de batina, mobiliza gente de tipos e matizes variados. Gente contente. Um sinal disso são as homenagens que disputam sua agenda à medida que se aproxima o dia 25 de agosto, quando ele vai completar 80 anos de idade. Em sindicatos, embaixadas, comunidades católicas e nas áreas comuns, ditas “sociais”, de prédios de apartamentos, recebe aplausos em grande quantidade e presentes em quantidade menor. Seus seguidores sinceros são mais numerosos que os dedos de uma mão – ou de milhares de mãos. Seus admiradores declarados lotam salões de casas abastadas e animam as rodas de quem não tem onde morar.

As festividades não aparecem nos jornais nem fazem alarde. Avançam como uma onda calma e pipocam em toda parte – até em salas de cinema. O documentário A Cabeça Pensa Onde os Pés Pisam – Frei Betto e a Educação Popular, o primeiro da trilogia dirigida por Evanize Sydow e Américo Freire, a cargo da produtora Mirar Lejos, foi exibido em pré-estreias comemorativas. A mesma produtora já começou a rodar o longa-metragem Betto, com o ator Enrique Díaz no papel principal. O lançamento está previsto para 2025.

No domingo passado, outro documentário, O Humanismo de Frei Betto, dirigido por Roberto Mader, foi exibido em avant-première pelo canal do ICL no YouTube. Leonardo Boff, um dos entrevistados, diz que seu velho companheiro sabe unir militância e religião. Os dois religiosos veem na figura de Jesus Cristo um preso político que foi torturado e assassinado por defender uma revolução – a revolução de mudar a maneira de viver por meio do amor ao próximo.

No mesmo filme, Betto afirma que, no Novo Testamento, há apenas uma definição de Deus: “Deus é amor”. É tanta afeição mística que, de acordo com Boff, às vezes o frade “sente ciúme de Deus” por achar que o Superior não lhe dá a atenção devida.

A fibra moral desse escritor e pregador é maior do que supõe a nossa vã laicidade. Ele de vez em quando se avista com um presidente da República, a quem não adula. Sem mudar de roupa, vai amparar por horas, por dias, por semanas, os pais de um jovem que morreu tragicamente. Entre uma coisa e outra, conversa com os desvalidos, os esquecidos, os invisíveis. Sem barulho, sem ruído, sem precisar ser notado. Em silêncio.

Coerente, muito embora controverso, Betto defende o governo de Cuba. Não espere que ele desista dessa causa, à qual se sente irmanado. E, se você for um crítico e disser que em Havana vige uma ditadura, ele o acolherá com o mesmo respeito caloroso e – para usar aqui uma palavra que ele inventou – com a mesma “fraternura”.

Fora isso, cultiva a boa mesa. Guarda de cor as receitas da mãe, dona Stella. Escreve sobre culinária – Comer como um frade, por exemplo –, sabe cozinhar e não faz feio. Não deixa ninguém cortar o queijo mineiro como se fosse pizza. Nessa matéria, sua ortodoxia é inflexível: as fatias devem ser retiradas sempre de fora a fora, e o queijo vai diminuindo da direita para a esquerda, como se fosse pão.

Betto é capaz de levar uma caixa de charutos Cohiba para o jovem editor que acabou de virar pai, mas você jamais vai vê-lo ostentando grifes. Seus vinhos têm preço mediano. Com a mesma disciplina litúrgica que lidera um grupo de oração, comanda a “Academia de Litros”, em que confrades e confreiras se reúnem para comer o que engorda, beber o que embriaga e prosear sobre assuntos que levam uma pitada de veneno.

Assim é. Quem o vê dando risada e fazendo piadas ferinas não tem ideia dos sofrimentos por que passou. Batismo de Sangue, de 1983, um de seus livros definitivos, conta a história dos frades dominicanos que entraram nas fileiras da ALN de Carlos Marighella para dar apoio logístico, sem nunca pegar em armas, e terminaram encarcerados. Frei Tito se matou no exílio. Não suportou conviver com o que a tortura quebrou dentro dele. Betto sobreviveu. Suportou. As cicatrizes que ficaram não se põem à mostra. Batismo de Sangue ganhou o Jabuti e foi adaptado para o cinema em 2006, pelo diretor Helvécio Ratton.

Esse homem de muitos tempos e muitos lugares, que foi jornalista na revista Realidade, trabalhou no Teatro Oficina junto com Zé Celso, morou na cadeia, na favela e no convento, sempre mineiramente quieto, merece todas as celebrações, silenciosas ou não. Parabéns, meu amigo. Feliz aniversário.

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EM BUSCA DO CAMINHO

Merval Pereira, O Globo

O STF não pode fazer pactos, pois provavelmente será chamado a julgar casos que envolvam os dois outros Poderes da República

Sempre que o Supremo Tribunal Federal (STF) faz parte de pactos políticos, como já aconteceu algumas vezes nos últimos anos, é sinal de que algo vai mal no nosso arcabouço institucional. Nos “pactos” anteriores, o tema central era sempre “a favor da democracia”. Agora, são as emendas parlamentares, uma intromissão direta em questões de outros Poderes, não apenas conceitual.

O STF não pode fazer pactos, pois provavelmente será chamado a julgar casos que envolvam os dois outros Poderes da República. Por isso não toma iniciativas sobre os temas a analisar, só atua quando solicitado por integrantes de outros Poderes ou pelas poucas instituições autorizadas a fazê-lo.

A reunião sobre as emendas parlamentares ocorrida na sede do STF em Brasília, portanto, é uma dessas anomalias a que nos acostumamos. O Supremo, por meio do ministro Flávio Dino, cuja decisão foi aprovada por unanimidade no plenário, entrou na disputa sobre as emendas instado por partidos políticos e as suspendeu enquanto não cumprirem as exigências constitucionais de transparência, impessoalidade e rastreabilidade.

Sua tarefa deveria ter se encerrado naquele momento. Legislativo e Executivo deveriam ter se sentado para negociar entre si, para atender às exigências do STF. No entanto estavam na mesa os 11 ministros do Supremo, o que fez com que o presidente da Câmara, Arthur Lira, dissesse que lá estavam dois Poderes contra o Legislativo, reforçando a desconfiança de que Judiciário e Executivo se uniam para retirar do Congresso o poder sobre as emendas e dando caráter político à decisão de Dino, ex-ministro de Lula.

No acordo entre Congresso, governo e Judiciário que saiu do encontro sobre emendas parlamentares, alguns pontos foram bons, outros nem tanto. A verba das emendas não foi reduzida. Deveria ter sido, pois é absurdo o que o Legislativo tem de parte do Orçamento, a mesma quantia deixada para o governo central fazer seu planejamento.

Ao mesmo tempo, a exigência de transparência e rastreabilidade fará com que muitas emendas não sejam usadas, ou pelo menos sejam usadas em coisas mais palpáveis e necessárias. O mais importante é que o Executivo passou a ter lugar de fala quando se tratar de emendas que não sejam individuais, mas de comissão ou bancada. Umas terão de ter caráter de interesse nacional ou regional, outras serão para projetos “estruturantes”. Dessa maneira, o Executivo passará a ter de volta parte do dinheiro hoje investido da maneira e onde os parlamentares querem, sem que tenham de dar satisfação sobre seus atos.

Várias investigações em órgãos fiscalizadores, como o Tribunal de Contas da União (TCU), já estão em andamento, provocadas por denúncias de políticos prejudicados ou anônimos cidadãos. Pode-se, a partir de agora, fazer uma combinação com o governo para financiar obras necessárias, pois, se o deputado tiver de explicar para onde foi o dinheiro, boa parte não terá explicação. Foi um avanço. Não é o que seria ideal, mas permite que o governo continue governando.

Porque a brigalhada toda de STF contra Legislativo, de Legislativo contra Executivo, pedindo ajuda ao Judiciário para protegê-lo, era qualquer coisa, menos um governo republicano. Veremos como conseguem agora montar o caminho para o equilíbrio voltar. Ficará mais difícil explicar razões de obras apenas para favorecer amigos. Sentar junto para negociar já mostra uma convivência saudavelmente democrática.

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BANCO CENTRAL E AS RODAS DE FOGO

Míriam Leitão, O Globo

O mercado tentou interpretar falas de Campos Neto e Galípolo como recados sobre juros. Ambos só disseram que o BC se deixou livre para decidir

O mercado financeiro reagiu, nos últimos dias, à entrevista de Roberto Campos Neto, como se ele fosse o “pombo” e o diretor de Política Monetária, Gabriel Galípolo, o “falcão”. Ou, como eles dizem, Campos Neto teria dado um recado “dovish” na entrevista a mim, como se ele tivesse dito que os juros não iriam subir em setembro, e Galípolo, teria dado recados “hawkish”, como se tivesse afirmado que os juros subiriam. Ambos estão dizendo que o Banco Central se deixou livre para decidir se aumentará ou não os juros na próxima reunião. Ou seja, na língua do mercado, não há “forward guidance”, isto é, indicação do que está por vir. Há uma dúvida na diretoria sobre o balanço de riscos e a conjuntura está mudando rapidamente.

Ontem mesmo saiu o dado de revisão anual do indicador mais importante do mercado de trabalho americano, o “payroll”. Foi feita uma revisão de 800 mil empregos para baixo. Ou seja, foram criados menos 800 mil empregos do que se pensava. O enorme ajuste eleva a aposta na queda de juros nos Estados Unidos em setembro. No Brasil, a utilização da capacidade instalada da indústria está no nível mais alto em uma década. Os números se movem e a decisão de juros será daqui a quase um mês.

A vida de Banco Central é ficar entre fogos. Da política ou do mercado. Operadores esquadrinham cada palavra para fazer suas posições e preços. Políticos acham um alvo fácil. No Brasil, foi assim durante um ano e meio, com o presidente do BC sendo atacado pelo presidente e pelo partido do governo por decisões que eram colegiadas. No próximo ano, o governo vai lidar com um BC que pode tomar medidas que desagradem, mas será formado por maioria de indicados do atual grupo político.

Campos Neto encontrou o presidente do Fed, Jerome Powell, numa época em que ele estava sendo pressionado pelo então presidente Donald Trump que o indicara para o cargo. Campos Neto disse: “sou solidário a você”. Powell agradeceu. Anos depois, o brasileiro estava sob críticas e, num encontro, Powell disse: “sou solidário a você”.

— Os banqueiros centrais acabam entendendo a forma de operar e entendem que é importante a liberdade de trabalhar. Acho que isso é bem amadurecido — me contou Campos Neto durante a entrevista.

Ele defendeu a ideia de que o Brasil passa agora por um “teste de autonomia”. Quis saber mais sobre esse “teste".

— A autonomia é nova, é a primeira mudança de governo, é natural que isso aconteça.

E contou uma conversa que teve com o presidente do Banco Central do Peru, Julio Velarde, que está há 17 anos no cargo.

– Eu disse: "o Banco Central do Peru tem uma institucionalidade forte porque balança, balança e você está aí". Ele respondeu: "mas no primeiro momento, tem um teste difícil, depois vai amadurecendo na sociedade que Banco Central independente é bom porque reduz as volatilidades no ciclo". A gente está no primeiro teste. Acho que a sociedade vai entender, vai defender o Banco Central independente.

Nem o mercado é uma entidade monolítica. Foi essa diferença que ele quis mostrar ao dizer que os economistas não estão prevendo alta de juros para este ano, mas o mercado aposta na alta. Pedi que me explicasse essa divisão das projeções da Selic.

— Eu peguei o relatório de hoje (segunda-feira) no Focus ainda não tem. Mas o mercado tem. O mercado sempre trabalha com um pouquinho de prêmio. O mercado precificou um pouco mais a credibilidade do Banco Central. Mas a gente tem dito que olha várias variáveis, não olha só o mercado.

O Banco Central é mais do que os preços do mercado ou as disputas políticas. Há mudanças que afetam diretamente a vida das pessoas. Perguntei que outras novidades viriam no Pix.

— Gostaria de entregar o Pix automático, em que todas aquelas contas mensais possam ter o pagamento programado. Outra é o pagamento por aproximação. Como será possível colocar o Pix no Wallet do Google Pay ou do Apple Pay pode-se fazer este pagamento por aproximação. Como o Pix é programável, a gente está juntando o sistema Pix com o Open Finance e vai ter uma parte que vai juntar com a moeda digital. A gente pode fazer muita coisa no futuro em contratos inteligentes.

Enfim, o Banco Central está na vida do país, mexe com preços, nervos e rotinas. Será bom se o país amadurecer para entender que o Banco Central independente é parte da manutenção da inflação baixa, conquistada há 30 anos.

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quarta-feira, 21 de agosto de 2024

PABLO MARÇAL CONDENADO POR FURTO EM UMA QUADRILHA DE FRAUDE BANCÁRIA

Artur Rodrigues, São Paulo

Marçal indicava vítimas a quadrilha e sabia de fraude, diz investigação após prisão em 2005

OUTRO LADO: Assessoria de candidato não responde a questionamentos; ex-coach tem dito que só consertava computadores

O processo em que o atual candidato Pablo Marçal (PRTB) foi condenado por furto por participação em uma quadrilha de fraude bancária desmonta a versão dele segundo a qual só consertava computadores.

Marçal tenta se eleger prefeito de São Paulo, e o tema de sua prisão e condenação é frequentemente resgatado por adversários durante debates.

O autodenominado ex-coach foi preso em 2005 durante a Pegasus, que foi noticiada à época como uma operação contra a maior quadrilha especializada em invadir contas bancárias pela internet, com mais de cem mandados de prisão expedidos em vários estados.

Marçal foi condenado a quatro anos e cinco meses em regime semiaberto pela Justiça Federal em Goiás, mas o caso prescreveu.

Folha procurou a assessoria de Marçal sobre o assunto, mas ele não respondeu até a publicação desta reportagem.

A investigação da Polícia Federal afirma que, além de fazer a manutenção dos computadores da quadrilha, Marçal operava um programa responsável por captar emails para os quais seriam enviados spams. Por meio deles, a quadrilha fisgaria dados das contas bancárias das vítimas.

O esquema envolvia o que se convencionou chamar de phishing, um velho método de fisgar pessoas na internet e induzi-las a clicar em links de sites que instalam vírus em seus computadores e celulares

A seleção de emails se dava por meio de um programa que sabia quais endereços eletrônicos eram de fato utilizados pelos usuários. Marçal alegou em depoimento que um dos acusados lhe dizia "que o trabalho que estava sendo realizado era de publicidade para um médico".

Um agente da PF ouvido como testemunha no caso deu depoimento que contraria a alegação de inocência de Marçal. Questionado pelo Ministério Público Federal durante audiência se Marçal sabia das atividades ilícitas, o agente respondeu que sim.

"Ah, sim. Sim. Inclusive tinha um...notebook, né, pra ele operar que foi fornecido pelo grupo", disse.

O Ministério Público Federal indaga se ele não fazia apenas a manutenção nos computadores, e o agente responde que não. "Inclusive, o Pablo é... a indicação de que ele quer enviar, ele próprio enviar, isso demonstra que ele sabe enviar [os emails mandados pela quadrilha]."

Em depoimento, Marçal negou fazer o envio dos spams, mas disse que um acusado pedia às vezes para que ele apertasse o botão para que um programa que fazia isso reiniciasse quando já estava operando.

O policial afirma ainda que Marçal também deu alguma "colaboração na elucidação de alguns pontos da investigação", e a Promotoria responde que isso seria levado em consideração pelo juízo.

O MPF não considerou crível a versão de desconhecimento dos fatos por Marçal, tendo como um dos motivos os próprios depoimentos dele sobre o assunto, no qual dá detalhes relativos ao caso.

Segundo despacho de um delegado da Polícia Federal, Marçal informou que líderes da quadrilha também mantinham um escritório onde estavam instalados computadores utilizados no esquema de transferências fraudulentas via internet.

Em seu depoimento, Marçal afirmou que recebia R$ 350 (cerca de R$ 1.000, em valores corrigidos) para fazer os serviços para Danilo de Oliveira, que foi acusado de chefiar a quadrilha. Ele disse ter conhecido o homem em uma igreja.

A condenação de Marçal se deu apenas em 2010. Na ocasião, ao condenar Marçal a quatro anos e cinco meses de reclusão, o juiz disse que ele teria tido um papel secundário na quadrilha. Sua pena foi extinta em 2018 por prescrição retroativa.

Em vídeo publicado em 2022 em suas redes, Pablo afirmou que consertava computadores para um "cara da igreja", que "os computadores ficavam rodando" e que "ia lá, só consertava e ia embora". Ele afirmou que todas as pessoas foram condenadas e cumpriram pena, sendo que só ele teve extinção da punibilidade.

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O PREÇO DA JOGATINA

Elio Gaspari, O Globo

Laços da jogatina com o crime organizado são conhecidos

O repórter Pedro S. Teixeira contou que dois economistas do banco Itaú estimaram que, nos 12 meses de junho de 2023 a junho de 2024, os brasileiros perderam R$ 23,9 bilhões apostando no setor legalizado da jogatina, as bets. Esse ervanário equivale a 1,9% da massa salarial do país e é apenas uma fatia do jogo legalizado.

Está nas livrarias “O lado B de Boni”, com um depoimento de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho sobre sua carreira redesenhando a televisão brasileira. A certa altura, Boni conta uma de suas muitas peripécias para encantar artistas. Ele tinha dado um carro de quatro portas a Dercy Gonçalves (1907-2008). Dias depois, ela vendeu o carro, e ele reclamou:

— Você que escolheu o carro. Por que vendeu?

— Vendi para jogar no bingo. Se eu dissesse que era para jogar, você não me daria. 

Nem todo cidadão tem um Boni do outro lado da linha. Disso resulta que, segundo uma estimativa, um terço dos apostadores está endividado e/ou com o nome sujo na praça.

A jogatina tem cobrado um preço alto, não só em dinheiro. Seus laços com o crime organizado são conhecidos, e ela vem avançando. As redes dos bicheiros, secularmente contidas num nicho da contravenção, expandiram-se com as máquinas de caça-níqueis.

Jogo, milícias e tráfico de drogas formam o triângulo que alimenta o crime organizado. Depois de uma década de investigações com idas e vindas, há um ano o juiz Bruno Rulière, da 1ª Vara de Combate ao Crime Organizado, do Rio de Janeiro, condenou a 13 anos de cadeia dois integrantes do Escritório do Crime. Na sua sentença, Rulière lembrou a “omissão deliberada” de agentes públicos.

É mais que isso.

Com um braço, o governo federal trata de regulamentar o que chama de “jogo responsável”. Entre março de 2023 e 31 de julho deste ano, fez 251 reuniões com representantes dessa modalidade de jogatina. (Dois jogotecas usaram a porta giratória de Brasília indo do governo para a guilda do “jogo responsável”.) Nenhuma dessas reuniões incluiu o grupo de psiquiatras do Hospital das Clínicas da USP que atende viciados no jogo.

No ano passado, a oposição derrubou no Senado o jabuti que permitiria o jogo em cassinos eletrônicos. Em junho, contudo, uma comissão de senadores aprovou, por 14 a 12, um projeto que legaliza o bicho, cassinos e bingos (alô, alô, Dercy!).

Para combater o crime organizado, os agentes públicos deveriam restringir suas áreas de atuação, em vez de expandi-las. Vários projetos legalizadores da jogatina tramitam no Congresso, sempre bafejados pela sede arrecadatória do governo. Com outro braço, tentando mostrar eficiência, Brasília cria programas grandiloquentes.

É sabido que a segurança pública tornou-se item prioritário na agenda dos brasileiros. Afora os males individuais provocados pelo jogo, ele serve para lavar dinheiro do tráfico de drogas e da corrupção. Com o jogo que já existe, está documentada sua conexão com o crime organizado.

Jair Bolsonaro sonhava com Sheldon Adelson, o magnata dos cassinos americanos e asiáticos. Pensavam, com o apoio do prefeito Marcelo Crivella, em criar resorts hoteleiros com cassinos no Rio e em cidades turísticas. O próprio ex-capitão deu uma pista reveladora de seu objetivo quando prometeu “um projeto” capaz de gerar uma “caixa maior do que a reforma previdenciária em dez anos”. Eram os cassinos de Adelson.
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MORRE DIANA

Mauro Ferreira, blog POP & ARTE, g1

 OBITUÁRIO – Cantora e compositora carioca de temperamento quente, Diana foi uma das vozes mais populares da canção sentimental brasileira da década de 1970.

Falo da canção habitualmente rotulada de cafona pelas elites culturais, mas amada pelo povo que tornou o álbum Diana, lançado pela artista em 1972, um dos blockbusters daquele ano no mercado fonográfico nacional por conta de sucessos como Ainda queima a esperança (Raul Seixas e Mauro Motta, 1972) e Porque brigamos, versão em português de I am.. I said... (Neil Diamond, 1971) escrita por Rossini Pinto (1937 – 1985).

Na certidão de nascimento, constava o nome de Ana Maria Siqueira Iorio (2 de junho de 1948 – 21 de agosto de 2024). Em anos recentes, a cantora acrescentou um h ao nome artístico e passou a se apresentar como Dianah.

Mas foi mesmo como Diana, sem o h, que o Brasil conheceu a cantora que foi morreu aos primeiros minutos desta quarta-feira, 21 de agosto, aos 76 anos, após ser encontrada pelo filho André Iorio já sem sinais vitais onde dormia na casa em que vivia no município fluminense de Araruama (RJ).

Anunciada por André nas redes sociais, a morte de Diana foi confirmada pela prefeitura de Iguaba Grande (RJ), cidade vizinha, para onde Diana foi encaminhada a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para tentar ser reanimada. A exata causa da morte não foi informada, mas suspeita-se que a cantora tenha sofrido ataque cardíaco enquanto dormia.

No período de auge artístico, Diana foi casada com o cantor e compositor Odair José, com quem tinha ruidosas brigas que paravam nas manchetes de jornais e revistas. Juntos, Diana e Odair fizeram a canção Foi tudo culpa do amor (1974), lançada há 50 anos na voz da cantora.

A partir dos anos 1980, a carreira de Diana perdeu impulso, mas a artista nunca deixou de fazer show, sobretudo na região nordeste.

A cantora gravou eventualmente álbuns com músicas inéditas, mas foram os sucessos da década de 1970, revividos por sucessoras como Barbara Eugenia, que mantiveram o nome de Diana na mídia, reiterando o fato de a artista ter sido uma das vozes referenciais da canção sentimental brasileira daquela década áurea.

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